Ano novo, guerra nova
2026 está a afirmar-se como um ano de fogo cerrado para Washington. As Forças Armadas americanas sucedem-se em frentes abertas, quase sem tempo para respirar.
Do tabuleiro do Atlântico Norte, com a questão da Gronelândia a ficar suspensa, para já, nos corredores de Davos, à operação relâmpago em Caracas que terminou com a captura de Maduro, passando pela pressão sobre a Colômbia e pelo reforço do embargo a Cuba, até ao mais recente e ainda em curso ataque à Pérsia, o mapa da influência Americana voltou a mover-se a alta velocidade.
É evidente que qualquer análise deste novo conflito mistura factos confirmados, leituras estratégicas e uma dose inevitável de antecipação. Quando a guerra começa, a informação é sempre parcial e o futuro escreve-se a lápis.
Convém, porém, não perder de vista a dimensão do país agora no centro da tempestade. O Irão não é apenas o terceiro maior produtor mundial de petróleo, é um gigante territorial.
Paradoxalmente, é também um país marcado por profundas fragilidades económicas, com baixo poder de compra e mais de 91 milhões de habitantes privados de liberdade e, em muitos casos, mergulhados na pobreza.
O que ali sucede impõe uma leitura dupla, social e geopolítica.
Social, porque Washington já admite a hipótese de colocar tropas no terreno para assegurar uma mudança de regime em Teerão. Num país onde mais de metade da população tem entre 15 e 40 anos, a pressão demográfica e geracional pode ser um fator decisivo, sobretudo quando comparada com a realidade envelhecida da Europa.
Ainda assim, o regime que governa há 47 anos não se desfez ao primeiro embate. Mostrou coesão, capacidade de controlo e disposição para resistir.
Essa resistência tem custos humanos e sinais claros, desde logo nos ataques dirigidos a vizinhos árabes, numa tentativa de alargar o conflito e demonstrar força.
A vertente geopolítica adensa o cenário. A posição assumida pelos Estados do Golfo desencadeou represálias militares que deverão prolongar-se nos próximos dias. A elas somam-se tentativas de ataques dispersos, concebidos para semear o medo e projetar instabilidade além-fronteiras, traço característico de um poder sob pressão.
Portugal e o Reino Unido já confirmaram a disponibilidade das bases militares americanas nos seus territórios, nos termos dos acordos existentes. Ao mesmo tempo, Macron volta a ensaiar uma liderança alternativa, procurando abrir espaço a uma solução que conduza ao fim de um conflito cujo desenlace parece, por agora, inclinar-se para a escalada.
Após os ataques dos últimos dias, incluindo o mais recente contra a base britânica de Akrotiri, em Chipre, a NATO garantiu que está a ajustar dispositivos e estratégias para assegurar a defesa dos seus 32 Estados-membros.
A União Europeia, por seu lado, limitou-se a apelar à proteção do povo iraniano, ao respeito pelos Direitos Humanos e pelo Direito Internacional, ao fim do programa nuclear e à preservação da cadeia global de abastecimento de petróleo.
O sentimento dominante é o de inquietação. Há a possibilidade de libertar um povo oprimido, ainda que pela via da força, instrumento que durante décadas sustentou essa mesma opressão.
Há também a esperança de que um país com História milenar e vastos recursos naturais possa encontrar um caminho de desenvolvimento e abertura.
Resta saber quanto tempo durará este conflito, qual será a sua verdadeira dimensão e que consequências deixará no imediato.
Mais decisivo ainda será perceber que Irão emergirá das cinzas: um regresso ao passado, à era do Xá, ou uma solução inédita.
O que daqui se deseja é simples na formulação e complexo na concretização: paz, prosperidade e segurança, para o Irão e para o mundo.
