As virtudes esquecidas da liderança
Quando pergunto quais são as qualidades requeridas para um CEO, a resposta surge quase sempre nas mesmas palavras: visão estratégica, capacidade de decisão, foco na execução, compreensão dos mercados. Tudo isto é essencial, mas, curiosamente, duas virtudes fundamentais raramente aparecem nessa lista: a generosidade e a humildade.Talvez porque ambas pareçam, à primeira vista, pouco compatíveis com a ideia tradicional de poder.
Durante muito tempo imaginou-se a liderança como afirmação individual, autoridade incontestada e capacidade de impor uma visão. Nesse contexto, a humildade podia ser confundida com insegurança e a generosidade, esse impulso de dar tempo, espaço e reconhecimento aos outros, interpretada como falta de firmeza. Os melhores líderes não são os que acumulam reconhecimento, mas os que têm a generosidade de o distribuir.
As empresas tornaram-se demasiado complexas para serem conduzidas por líderes que acreditam saber tudo ou que precisam de ser sempre eles os mais brilhantes na sala. Os melhores líderes precisam apenas de garantir que estão rodeados de pessoas que brilham. Um CEO eficaz, hoje, não é aquele que concentra todo o mérito, mas aquele que cria as condições para que outros tenham sucesso, e isso exige, entre outras coisas, generosidade.
Generosidade no reconhecimento do trabalho das equipas, na partilha de informação, na abertura a ideias que não nasceram no topo da organização. É essa a atitude que cria confiança e permite que o talento floresça.
Mas a generosidade verdadeira raramente existe sem humildade. A humildade de um líder não consiste em diminuir-se, mas em reconhecer que nenhuma pessoa, por mais experiente que seja, possui sozinha todas as respostas. É a consciência de que ouvir pode ser tão importante como decidir e de que aprender está longe de terminar quando se chega ao topo.
Ao longo de muitos anos a acompanhar processos de seleção e avaliação de executivos, tenho tido o privilégio de observar de perto diferentes estilos de liderança e uma das conclusões mais consistentes é que os líderes mais eficazes raramente são aqueles que procuram afirmar-se a todo o momento. Pelo contrario, são, muitas vezes, aqueles que sabem escutar, reconhecer o mérito dos outros e criar espaço para que o talento à sua volta se manifeste e cresça.
Nas organizações onde esta atitude existe, as equipas sentem-se seguras para contribuir, para discordar de forma construtiva e para assumir responsabilidade. Onde a liderança é dominada pelo ego, instala-se rapidamente um silêncio defensivo: as pessoas deixam de arriscar ideias e passam apenas a confirmar o que o líder já pensa.
A generosidade e a humildade têm ainda um efeito menos visível, mas profundamente relevante: tornam a liderança mais sólida e duradoura. Num tempo de enorme pressão sobre os executivos, os líderes que constroem relações de confiança à sua volta raramente ficam isolados nas decisões difíceis.
Talvez por isso muitos dos melhores líderes partilhem um traço comum: uma autoridade tranquila, que não precisa de se afirmar permanentemente.
Porque, no fim do dia, liderar não é provar que se tem poder, é saber o que fazer com ele.
