Catástrofe: que futuro construímos agora?

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As tempestades que têm fustigado vários países nos últimos tempos, de formas cada vez mais frequentes e/ou inusitadas, já não são exceções. Prova disso foi o que aconteceu recentemente em Portugal, quando, em fevereiro, o país foi devastado por alguns destes eventos.

As alterações climáticas vieram tornar estes fenómenos mais intensos e deixaram expostas fragilidades que insistimos em ignorar. Sempre que o vento arranca telhados ou a chuva invade casas, percebemos que continuamos a construir como se vivêssemos num passado estável que já só existe apenas nas nossas memórias. Tornou-se inevitável pensarmos no futuro que queremos, sabendo de antemão que as catástrofes serão cada vez mais recorrentes.

Contas feitas, no final do mês passado, várias notícias davam conta de que só a depressão Kristin afetou mais de 30% das casas nos 12 concelhos mais atingidos pelas intempéries. Ou seja, a arquitetura tem aqui uma responsabilidade incontornável.

Não se trata de aproveitar a tragédia, mas de aprender com ela e projetar melhor. E, além disso, a arquitetura pode, e deve, contribuir para soluções rápidas e resistentes que respondam de forma célere à necessidade urgente de realojar quem perde a sua casa. Aliada à tecnologia, consegue oferecer sistemas construtivos mais ágeis, modulares e robustos, capazes de dar resposta imediata em cenários de emergência.

Países como o Japão ou o Chile, repetidamente atingidos por fenómenos extremos, já conseguiram transformar a adversidade em avanço técnico através de programas de capacitação para enfrentar desastres naturais. Criaram normas sísmicas rigorosas, desenvolveram materiais flexíveis, aperfeiçoaram sistemas de drenagem e elevaram a construção a um patamar em que a resiliência é tão essencial quanto a estética.

Em Portugal, continuamos muitas vezes a reagir em vez de antecipar. Mas a boa construção pode e deve ser a primeira linha de defesa num clima cada vez mais imprevisível. Estruturas bem ancoradas, coberturas resistentes ao vento, sistemas de retenção da água e edifícios que respeitam o território são medidas que não representam luxo, mas preparação e obrigação moral.

As tempestades recentes mostram que reconstruir igual é desperdiçar a oportunidade de evoluir e, acima de tudo, de prevenir e proteger. Cada evento extremo deve servir como alerta e como impulso para elevar o padrão da construção nacional.

Se quisermos um futuro em que a catástrofe não seja sinónimo de colapso, temos de projetar com a consciência de que o clima mudou e nós temos de mudar com ele. Assim como as nossas prioridades e os elementos a ter em conta nos momentos de decisão.

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