Dois Mundos

Luís Parreirão

Advogado e gestor

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Para muitos de nós, pelo menos os mais velhos,” Dois Mundos” é sempre associado à colecção de livros, do mesmo nome, editada na segunda metade do século XX pela editora Livros do Brasil.

E, nesse pós-guerra em que a editora foi criada, e nos anos seguintes, os dois mundos significavam abertura ao mundo. O conhecimento do diferente, do diverso, permitindo-nos conhecer grandes autores da literatura mundial, nomeadamente brasileira.

Desta forma, muitos de nós acedemos a universos culturais diferentes numa época em que a informação não circulava à velocidade de hoje.

Podemos mesmo dizer que ali também aprendemos a ler o mundo, os mundos.

Estes dois mundos foram um elogio à diversidade e, em muitos casos, o acender de uma luz num tempo de trevas.

Aprendemos, também com a “Dois Mundos”, a dar conteúdo à expressão “todos diferentes, todos iguais”

A colecção voltou agora a ser publicada. O mundo é que é outro.

E, ao elogio da diversidade e da diferença, sucede um mundo que parece, hoje, mergulhar numa lógica dicotómica de bons e maus, de poderosos e servos, de “normais” e marginais.

Certo é que sempre conhecemos estas tentações, e, também sabemos, como é que, quase sempre, acabou a história.

O que hoje é especialmente preocupante nas nossas sociedades, após décadas de progresso e tolerância, é um certo caminhar para um mundo com dois lados, não porque diverso, mas porque em conflito entre si. Conflito existente ou potencial.

A casas que se transaccionam por muitos milhões de euros contrapõe-se a ausência de habitações para a generalidade dos cidadãos, ou a criatividade espanhola de venda de quartos como habitação permanente.

A metrópoles modernas, povoadas, bem dotadas de infra-estruturas e serviços, contrapõem-se pequenas cidades e vilas que vão definhando na sua interioridade e, ou ruralidade.

Após décadas de progresso da saúde pública por via da vacinação em massa, surgem agora obscuros movimentos anti vacinas.

A OXFAM diz-nos que os 12 bilionários mais ricos do mundo têm mais riqueza que a metade mais pobre da humanidade – 4 mil milhões de pessoas.

O fosso entre ricos e pobres no acesso à educação agrava-se. Enquanto 33% daqueles acedem ao ensino superior, destes são apenas 11%.

Num país de emigrantes e imigrantes consideramos aqueles ousados e estes criminosos potenciais.

Parece que, com alguma inconsciência, estamos a criar um moderno “exército” de “descamisados”, sem nada para perderem, numa sociedade extremada onde a diversidade parece cada vez mais distante e não compreendida.

Talvez se formos todos mais iguais, se alterarmos a estrutura do nosso tecido produtivo e, consequentemente, a distribuição de rendimentos, talvez assim possamos voltar aos dois mundos da diversidade que tanto nos enriqueceram e não caminhar para dois mundos em confronto.

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