Entre o Burnout e a Tribo: o dilema da nova geração

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A nova geração de profissionais que está a revolucionar o setor tecnológico enfrenta hoje um dilema cada vez mais evidente: quer alinhamento com os seus valores, impacto real e verdadeira flexibilidade, mas paga, muitas vezes, o preço do desgaste emocional. Trabalhar com sentido já não é um luxo, é uma exigência. Criar soluções que simplificam processos e libertam equipas mostra o valor que estes profissionais podem gerar. Porém, a ambição de transformar o mundo do trabalho nem sempre encontra espaço nas organizações que ainda não acompanharam esta mudança.

O modelo tradicional de “trabalhar para viver” deu lugar ao desejo de viver através do trabalho. Muitos jovens consultores tecnológicos trocam de empresa com frequência, ou até abandonam o emprego formal, procurando projetos mais autênticos. Ao mesmo tempo, o setor exige rapidez, inovação e disponibilidade constante. A flexibilidade transforma-se em exaustão quando todos os pedidos são urgentes e a fronteira entre trabalho e vida pessoal desaparece. Não falamos de desinteresse ou de fazer o mínimo, mas de burnout: desmotivação profunda e falta de energia até para corresponder às próprias expectativas.

Apesar da corrida pela inovação, a cultura organizacional ainda falha muitas vezes em acompanhar esta transformação. Sentir que pertencem a uma tribo, alinhada com valores, missão e equipa, é essencial para resistir à pressão. Quando o trabalho se limita a cumprir tarefas, falta sentido, ligação e comunidade.

Uma Tribo constrói-se com confiança, respeito e cuidado mútuo, não com checklists. São as pessoas que fazem a diferença: as inspiradoras que puxam pelos outros, as apaixonadas que trazem autenticidade, as motivadas que transformam desafios em ação, as gratas que reforçam laços e as de mente aberta que promovem inovação. É este equilíbrio que reduz o risco de burnout e transforma os colegas em equipa.

Sem pessoas, não há tecnologia que resista. Na era da transformação digital, há quem se foque exclusivamente em ferramentas, processos e indicadores. No entanto, a tecnologia só gera resultados quando encontra terreno fértil numa cultura forte e humana.

A inovação nasce da mente, mas só cresce no coração de uma tribo. Por isso, o contrato de trabalho já não basta. Esta geração procura reconhecimento, crescimento e pertença. E as empresas que investem verdadeiramente em cultura colhem resultados: maior retenção, performance elevada e impacto sustentável.

Entre o burnout e a TriboTech, existe um caminho que as organizações podem e devem construir. O grande desafio desta geração será encontrar equilíbrio entre propósito e bem-estar. Porque, como dizia António Variações, “estou bem onde não estou”. Talvez a verdadeira conquista seja aprendermos a estar bem precisamente onde estamos.

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