Está a IA a cumprir expectativas de crescimento?

Luís Tavares Bravo

Economista. Presidente do International Affairs Network

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A inteligência artificial entrou definitivamente no centro da disputa económica global entre Estados Unidos, China e União Europeia. Em 2026, o debate já não é tecnológico: é económico, industrial e geopolítico. A questão central é perceber se a IA está realmente a cumprir a promessa de aumentar produtividade, crescimento e competitividade. E este é o ano que já pode servir de prova de conceito sobre o real impacto desta tecnologia. 

 Nos mercados financeiros, a resposta dos investidores tem sido eufórica. Nos Estados Unidos, o investimento em IA tornou-se um dos principais motores de Wall Street e uma bala de prata de revitalização do crescimento económico. O FMI e vários analistas sublinham que o investimento em centros de dados, chips e software já representa uma parcela relevante do crescimento do PIB americano. Empresas tecnológicas ligadas à IA continuam a liderar os ganhos bolsistas, enquanto gigantes tecnológicos preveem investimentos superiores a 500 mil milhões de dólares em infraestrutura digital. 

 Na Ásia, sobretudo China, Taiwan e Coreia do Sul, a aposta concentra-se na produção industrial, semicondutores e automação. O banco de Investimento Goldman Sachs prevê que a economia chinesa cresça 4,8% em 2026, beneficiando da expansão tecnológica e exportadora. Já a União Europeia permanece mais lenta: o BCE estima um crescimento de apenas 0,9% para a Zona Euro em 2026. 

 Contudo, os ganhos de produtividade continuam desiguais. A OCDE estima que a IA possa acrescentar entre 0,5 e 1 ponto percentual ao crescimento anual da produtividade das economias do G7 na próxima década. Mas muitos observadores alertam que parte destes ganhos ainda está concentrada em poucas empresas e setores – a consultora McKinsey defende mesmo que a verdadeira transformação económica da IA não virá apenas da eficiência, mas da criação de novos modelos de negócio e mercados. 

 No mercado de trabalho, o ajustamento começou. O FMI estima que cerca de 40% dos empregos globais serão impactados pela IA, podendo chegar aos 60% nas economias desenvolvidas. Ainda assim, os dados europeus sugerem que a adoção de IA tem aumentado produtividade sem provocar, até agora, destruição líquida significativa de emprego. O desafio está na requalificação. EUA e China avançam com estratégias agressivas de formação tecnológica e investimento industrial, enquanto a União Europeia aposta mais na regulação, no AI Act e em programas de capacitação digital. 

 E é precisamente aqui que a Europa enfrenta o seu maior dilema: conseguiu liderar o debate ético e regulatório, mas continua atrasada na escala de investimento e inovação. Também para Portugal, esta transição será decisiva. A IA pode ajudar a romper com décadas de baixa produtividade e baixos salários. Mas isso exigirá mais qualificação, adaptação das empresas e uma estratégia nacional séria para preparar trabalhadores e instituições para a aquela que pode ser a maior transformação económica desde a internet. 

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