Família e famiglia

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Perante as pressões para demitir a sua ministra da Saúde, Montenegro respondeu que os problemas não se resolvem com demissões no que se constituiu, inadvertidamente, talvez na maior crítica a Ana Paula Martins, associada a inúmeros afastamentos e substituições nos organismos que tutela. Montenegro não tem razão: algumas vezes, a gestão é mesmo parte do problema, quando não o problema, e, nesse caso, deve ser substituída. Sem um juízo definitivo, admitamos que a evidência contra Ana Paula Martins aparenta ser substancial.

A qualidade da gestão, entendida como a quantidade e qualidade dos processos de gestão adotados, tem sido tema tabu em Portugal. Ora, quando é consensual que a baixa produtividade se constitui no nosso problema nuclear e, havendo evidência internacional da forte correlação entre a mesma e as práticas de gestão, não introduzir no debate esse facto compromete as hipóteses desenhar as políticas adequadas.

Uma outra regularidade é a de que o nepotismo está fortemente associado a práticas deficitárias e desempenhos que deixam a desejar. As empresas familiares e as empresas públicas surgem como as entidades em que esse problema é mais latente: os laços de sangue ou o alinhamento partidário não se constituem em bons critérios para a escolha dos gestores. Não que sejam uma fatalidade, se for o mérito a prevalecer! Todos conhecemos excelentes empresas de matriz familiar e, talvez embora menos frequentes, de empresas públicas (sendo que, neste último caso, a instrumentalização política é uma grande, e perversa, tentação que dificulta a avaliação objetiva da gestão).

Voltando ao setor da saúde: é difícil que as coisas possam melhorar quando se assiste à substituição sistemática de dirigentes hospitalares e outros organismos setoriais, sem qualquer avaliação ou justificação que não seja a confiança política o que coloca sob suspeição quem vier a seguir.

Pouca adianta ter um ministro para a reforma do Estado se, para além da arquitetura do sistema, não se atacarem também as práticas de gestão, a começar nas nomeações. Profissionais precisam-se. Como dizia António Mota, “uma empresa familiar é demasiado importante para ser mal gerida”. E uma empresa pública, não?

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