Geopolítica e negócios: viver com o imprevisível
Num contexto internacional já marcado por uma elevada volatilidade, os acontecimentos das últimas 24 horas ilustram de forma particularmente clara o nível de incerteza com que as empresas hoje se confrontam.
Ainda esta quarta-feira, as declarações do presidente norte-americano, Donald Trump, afirmando a possibilidade de um ataque ao Irão com o objetivo de “pôr fim a uma civilização”, introduziram um grau de tensão geopolítica extremo. Afirmações desta natureza não são meramente retóricas, pelo contrário, traduzem-se imediatamente em instabilidade nos mercados, com pressão sobre os preços da energia, entre outras perturbações.
Felizmente, o dia de hoje trouxe sinais positivos, com o anúncio de um acordo entre os Estados Unidos da América e o Irão, para já com uma trégua de duas semanas, com Trump a classificar “um grande dia para a paz mundial”, contribuindo para aliviar, ainda que temporariamente, a pressão sobre os mercados internacionais. À hora em que escrevo este artigo o preço do petróleo já estava abaixo dos 100 dólares por barril (à volta dos 94 dólares), ainda assim, muito acima da cotação registada antes do início do conflito no Médio Oriente.
Sendo a previsibilidade um dos principais ativos para a atividade económica, esta alternância abrupta entre escalada e descompressão geopolítica é, em si mesma, um dos maiores desafios para as empresas. Episódios como este reforçam a perceção de risco e obrigam as empresas a operar num ambiente cada vez mais defensivo. Não se trata apenas de reagir a crises, mas de gerir a incerteza permanente, a qual impacta decisões estratégicas, nomeadamente, adiamento de decisões de investimento. Porque o desafio não é apenas crescer, mas fazê-lo num mundo onde o risco deixou de ser exceção para passar a ser regra. Para as empresas portuguesas, particularmente expostas a mercados externos, este contexto exige uma redobrada capacidade de adaptação, onde a diversificação de mercados, o reforço da resiliência das cadeias de abastecimento e uma gestão prudente da tesouraria são imperativos.
Ao mesmo tempo, este cenário reforça a importância de políticas públicas que promovam a estabilidade interna e reforcem a competitividade e resiliência da economia portuguesa. Neste âmbito, realço que a AEP tem vindo a apresentar junto do governo várias propostas.
Num ambiente externo imprevisível, Portugal deve afirmar-se como um espaço de confiança, previsibilidade, segurança e atratividade para o investimento, preparando o país para o presente e o futuro, onde a incerteza será, inevitavelmente, uma constante.
