A operação dos EUA na Venezuela veio trazer ainda mais instabilidade e incerteza a um mundo já muito convulsionado por desarranjos geopolíticos. E a concretizarem-se as ameaças de um Donald Trump decidido a exumar a Doutrina Monroe, 2026 promete ser pródigo em perturbações à ordem mundial, com implicações no crescimento económico. Os periclitantes tempos em que vivemos tornam difícil antever a evolução da economia internacional e, por consequência, de uma economia aberta e frágil como a portuguesa.Por ora, o que nos dizem as instituições nacionais e internacionais é que Portugal vai crescer moderadamente, apenas um pouco acima dos 2%. Um crescimento deste valor não terá impacto significativo quer na produtividade e competitividade das empresas, quer nos salários e poder de compra dos portugueses. “Tudo como dantes, quartel de Abrantes”: em 2026, a economia nacional continuará a evoluir abaixo do seu potencial, empurrada novamente pelo consumo, turismo, emprego e PRR.A somar à tensão geopolítica, outros desafios se encastelam no horizonte da economia global, como a transformação tecnológica impulsionada pela IA, o custo da energia e matérias-primas, a transição energética, a crise climática ou a diversificação de mercados para superar os atuais constrangimentos ao comércio livre. Portugal enfrenta todos estes desafios, aos quais acrescem questões que têm que ver com a situação particular do país: baixa produtividade, complexidade do sistema fiscal, envelhecimento populacional, escassez de mão de obra, incapacidade de atrair e fixar talento, défice de qualificação, inovação e tecnologia do tecido produtivo.Para responder a estes desafios, os decisores políticos vão ter de revelar um verdadeiro espírito reformista, enquanto às empresas se exige resiliência, estratégica e ambição. Do Governo espera-se que, em 2026, avance na reforma da Administração Pública e conclua a revisão do Código do Trabalho. Convém ainda que sejam tomadas medidas assertivas para tornar Portugal competitivo na atração de talento, o que implica um enquadramento fiscal mais favorável tanto para os nossos jovens como para expatriados altamente qualificados. Também era bom que as exportações voltassem a ser o principal motor de crescimento, objetivo que requer um alívio da carga burocrática e fiscal e financiamento mais robusto para quem arrisca a internacionalização.Para as empresas, 2026 afigura-se como mais um ano de mangas arregaçadas. Há que demonstrar resiliência frente a uma conjuntura extremamente volátil, sendo também avisado investir mais em tecnologia e inovação. Só que, para isso, é preciso que as empresas disponham de massa crítica que lhes permita obter ganhos de produtividade e competitividade a partir da transição digital. Tecnologias ainda em fase de amadurecimento, como a IA, carecem de conhecimento especializado para gerar resultados efetivos, o que nos remete, uma vez mais, para a necessidade de maior qualificação profissional.Tudo somado, ainda não será em 2026 que a economia portuguesa vai dar o salto que se deseja. Não obstante, são esperados alguns progressos quer nas condições para a atividade empresarial em Portugal, quer na própria dinâmica das empresas. O nosso país ainda é um oásis de tranquilidade num mundo em convulsão, podendo valer-se disso para atrair investimento e talento, fazer negócios e diversificar mercados. Resta saber se, perante a instabilidade internacional, Governo e empresas vão revelar “grace under pressure", como diria Hemingway.