Há algo de podre no reino laboral
Regresso ao tema do mercado laboral porque, esta semana, a OCDE revelou, no seu habitual Employment Outlook, dados que deviam fazer soar vários alarmes no nosso país. Muitas empresas em Portugal estão a fazer acordos ilegais, que limitam liberdade e ganhos dos trabalhadores quando saem para outras empresas.
São utilizações abusivas de cláusulas anticoncorrenciais, que passam por cláusulas de não-angariação de clientes ou acordos de confidencialidade – e Portugal tem uma utilização de ambas acima da média da OCDE. No mesmo sentido, há indícios de que empresas concertam salários e fazem acordos de não-contratação entre elas.
Ora, num mercado laboral significativamente inflexível como é o português, onde os baixos salários continuam a ser dos principais problemas – é, aliás, comummente dito que é praticamente impossível ter aumento, em Portugal, a menos que se mude de empresa, porque a progressão na carreira é algo ainda difícil para muitas lideranças e administrações –, isto é grave e é preocupante.
Mas vamos a números: com base nos dados mais recentes do Eurostat e de relatórios nacionais, divulgados inclusivamente no Dinheiro Vivo, o salário médio anual português ronda os 24.800 euros, enquanto a média da UE está perto de 39.800 euros. Estamos a falar de uma diferença de cerca de 15.000 euros ou menos 38%.
Nesta edição do Dinheiro Vivo, Óscar Quevedo, CEO da empresa familiar Quevedo, lembra que “ninguém se vai embora de Portugal para ganhar menos”, respondendo às queixas de que há falta de mão de obra no país. O que há, defende o empresário, são salários baixos.
Existe, também, em Portugal, uma percentagem bastante elevada de trabalhadores pouco qualificados (são 29%, a maior da UE) e, ao contrário do que alguns discursos apregoam, o país está abaixo da média europeia no que à contratação de trabalhadores de outros países da UE diz respeito. Porquê? Precisamente porque os salários baixos e a inflexibilidade do mercado laboral tornam o destino pouco atrativo – não é também por acaso que estamos ligeiramente acima de outros países europeus no que se refere à contratação de trabalhadores de países extracomunitários, que não raras vezes estão a fazer os trabalhos precários que todos criticamos, mas de que todos usufruímos. Pense nos empregados de mesa, motoristas de TVDE ou trabalhadores da construção civil.
Portugal continua, também, a ser dos países onde a produtividade é mais baixa – e sinto que nos estamos a repetir nestas páginas, ao trazer de novo o assunto – e onde as pessoas têm reportado níveis mais elevados de stress e de sintomas de esgotamento (ou burnout). Estamos a falar de mais de metade dos trabalhadores, segundo dados do STADA Health Report 2025, uma das percentagens mais elevadas entre os pares europeus; ao mesmo tempo, referem dificuldades de conciliação da vida familiar e profissional.
É verdade que os desafios das dinâmicas de trabalho atuais são grandes. Exigem flexibilidade, ponderação, espírito crítico, visão – mas não exigem mais do que aquilo que um líder deve saber fazer. Portugal, que tem “a geração mais bem preparada de sempre”, continua sem conseguir transformar essa preparação em eficiência, eficácia, riqueza e bem-estar social. Ao invés disso, deixa fugir os seus melhores talentos, dificulta a vida a quem está e as próprias empresas – para voltarmos aos dados da OCDE – parecem contribuir para este ambiente de asfixia e de mediocridade que se foi instalando nas últimas décadas.
Ou seja, há mesmo algo de estruturalmente podre no mercado laboral português.

