Inteligência Natural ou Artificial?
António Damásio, figura maior do nosso conhecimento e pensamento, apresentou e discutiu o seu novo livro A Inteligência Natural & a Lógica da Consciência em mais uma sessão promovida no contexto do Grupo de Reflexão SK – Sharing Knowledge. Num tempo dominado pelos desafios da Inteligência Artificial, António Damásio destacou que o desenvolvimento da consciência é uma das mais notáveis consequências da Inteligência Natural, sobretudo nos seres humanos e num contexto de pertença em comunidade.
Segundo este grande especialista, “quem imaginaria que o afeto, em geral, e os sentimentos, em particular, fabricados por obra e graça da Inteligência Natural como meio de manter a vida em criaturas simples se tornariam nada mais nada menos quer o mais profundo alicerce da humanidade que habitamos e observamos?” A capacidade de ser e de estar, a partir do pensar, é de facto o alicerce central de uma sociedade que se quer aberta e moderna, focada na ambição do futuro a partir da identidade do passado e do sentido do presente.
Mas temos que ser claros. A transformação que a Inteligência Artificial está a provocar na nossa sociedade e economia obrigada, segundo o especialista Paulo Dimas, a um compromisso claro com um forte sentido de responsabilidade social que tem que ter por base a capacidade de partilha entre as pessoas e a sua disponibilidade para fazerem da sua consciência o acelerador de uma aposta de integração e inclusão em sociedade. A revolução da Inteligência Artificial é um convite a uma nova ordem de interação e a tecnologia tem que ser vista como um instrumento central para a partilha de valor numa sociedade cada vez mais desigual e complexa.
E António Damásio é muito claro. A forma como a tecnologia vai ser usada e a capacidade de fazer dela um canal de inteligência competitiva fará a diferença no futuro. Este pensador fala-nos da necessidade de reposicionar o espaço público e de reinventar o contrato de confiança entre cidadãos e instituições num contexto de maior competitividade global. A nova ordem natural de que António Damásio nos fala implica que a aposta numa sociedade aberta moderna e mobilizadora seja o espaço natural para uma participação individual e coletiva sensata e estruturada, em que a criação de valor assente numa partilha inteligente de recursos e competências.
António Damásio acredita no futuro. Mas sabe que o futuro tem as suas limitações e as suas dificuldades numa civilização que ao contrário do que Francis Fukuyama previa tem todas as condições para se renovar de forma participada e colaborativa. Precisamos como indivíduos e como sociedade de reforçar o nosso sentido de confiança e de modernidade participativa num espaço aberto em que os valores e as ideias devem fazer a diferença. Num tempo e num mundo dominado pelo debate da Inteligência Artificial temos que voltar ao sentido e à identidade da Inteligência Natural. Assim falou António Damásio.
