O Estado digital que o país precisa
A transformação digital já não é tendência, é uma evidência. Está a redesenhar cadeias de valor, modelos de negócio, serviços de Saúde, de Educação e indústria… E o Estado não pode continuar a avançar a um ritmo diferente do da economia que serve e que regula.
Há uns anos, num Congresso da APDC, trouxemos o Chief Digital Technology officer do Governo de Singapura. Geria diretamente cerca de 700 especialistas em tecnologia, integrados numa agência com mais de 2300 pessoas dedicadas exclusivamente à transformação digital do Estado. O que impressionava não era a dimensão da equipa, mas a lógica integrada com que pensavam a tecnologia: serviços partilhados para toda a Administração Pública, soluções criadas uma vez e escaláveis para todo o Estado, gerando sinergias, economia de recursos e eficiências reais.
Em Portugal, essa visão ainda está por realizar de forma abrangente. A Estratégia Nacional para a Transformação Digital aponta para a necessidade de um percurso comum de transformação e para a definição de requisitos partilhados, capazes de nivelar o progresso entre entidades públicas e potenciar resultados consistentes para cidadãos e empresas. Mas persistem sistemas redundantes, níveis desiguais de maturidade digital e processos ineficientes.
Há também um desafio estrutural que não pode ser ignorado: o talento. No setor público, a idade média ronda os 48 anos. Este é dado não apenas estatístico, mas com implicações estruturais. Sem uma renovação geracional, sem carreiras competitivas e sem ambientes de inovação estimulantes, será difícil liderar uma transformação profunda. A digitalização do Estado exige novas competências e uma nova cultura organizacional, mais ágil, colaborativa e orientada a resultados.
A experiência internacional mostra que um modelo de serviços partilhados - com governança clara, interoperabilidade e reutilização de soluções - reduz custos, evita duplicações e acelera a adoção do digital. Um Estado que partilha dados, plataformas e capacidades tecnológicas melhora a experiência dos cidadãos e empresas, aumenta a eficiência interna e cria uma base sólida para a adoção de inteligência artificial, automação inteligente e serviços públicos personalizados.
Mais do que projetos avulsos ou pilotos, precisamos de escala. Se queremos mais transparência e mais ambição, precisamos de um espaço institucional estável de debate, partilha e prestação pública de resultados, que ultrapasse os ciclos governativos e consolide uma visão de longo prazo.
Portugal beneficiaria se fosse criado um momento anual de referência, dedicado à reforma digital da Administração Pública: um encontro de alto nível para apresentar avanços realizados, discutir novos projetos transformadores e promover benchmarking entre entidades públicas e privadas.
