O futuro do trabalho é uma questão de saúde pública e economia
Durante anos, tratámos o trabalho como tema de gestão: produtividade, metas, performance. Quando surgiam questões sobre exaustão ou burnout, a resposta eram workshops, apps ou dias de ioga… tudo muito bem-intencionado, mas insuficiente. O problema não é individual, é sistémico. O futuro do trabalho não será decidido apenas por CEOs ou RH, mas discutido nas mesas onde se decide o SNS, a Segurança Social e a produtividade nacional. Em Portugal, os custos de problemas de saúde mental chegam a 3,7% do PIB — demasiado para ser um tema “soft”.
A cultura de trabalho é cada vez mais um determinante de saúde. Existe a ideia perigosa de que saúde mental é uma questão pessoal, resolvida com resiliência ou terapia, desresponsabilizando o sistema. Mas o trabalho pode proteger ou expor: autonomia, sentido e comunidade versus urgência crónica, metas irreais, medo de errar e “sempre disponível”.
Quando o risco se generaliza, o impacto deixa de ser individual: mais absentismo, rotatividade, consumo de saúde, desgaste familiar, menor natalidade e inovação. Uma força de trabalho exausta não produz mais; produz pior. E quando sai, leva conhecimento, relações e cultura — insubstituíveis. O que chamamos “escassez de talento” muitas vezes é escassez de condições.
Competitividade não pode ser construída à custa do desgaste humano. Normalizar cansaço, ansiedade e stress crónico transfere o custo para o sistema de saúde e famílias. Na UE e Reino Unido, os custos de problemas de saúde mental ultrapassam 4% do PIB, mais de 600 mil milhões de euros. O trabalho influencia saúde coletiva tanto quanto alimentação, sono ou qualidade do ar. Longas horas de trabalho associam-se a milhares de mortes por AVC e doenças cardíacas.
É preciso desenhar o bem-estar no trabalho: previsibilidade, autonomia, limites claros, reconhecimento real, liderança capacitada, métricas relevantes (rotatividade, absentismo, clima psicológico) e coerência cultural.
O futuro do trabalho separará organizações que tratam pessoas como recursos e as que as veem como infraestrutura. Não é moralismo, é pragmatismo: produtividade constrói-se em ambientes onde se pode pensar, colaborar, aprender e recuperar. Trabalhar melhor, com foco, inteligência, organizacional e liderança madura, é mais sustentável e económico do que simplesmente “trabalhar mais”.
Se isto parece exagero, basta olhar para o quotidiano: pessoas que “aguentam” até ao dia em que deixam de conseguir; equipas que sobrevivem em modo urgência; líderes sem tempo para liderar; culturas onde pedir ajuda é fraqueza e dizer “não” é falta de compromisso. A longo prazo, isto não é apenas um problema de RH. É um problema de saúde pública, com consequências económicas. E, para lá do impacto psicológico, há também impacto físico mensurável: a OMS e a OIT estimaram que longas horas de trabalho estiveram associadas a 745.000 mortes em 2016 por AVC e doença cardíaca isquémica.
Portugal tem a oportunidade de ser um laboratório europeu de nova cultura de trabalho. Os media podem elevar a discussão, deixando de lado clichés e tratando o tema como questão económica e de saúde pública. O futuro do trabalho não será decidido por slogans, mas por escolhas que se refletirão nas estatísticas de saúde e nas contas da economia.
