O lucro é uma coisa boa
As maiores empresas portuguesas, nomeadamente as cotadas na Bolsa, começaram a publicar as contas de 2025. Os lucros geralmente cresceram e cresceu a economia. Boas notícias.
Mau é que tanto empresas como muito do espaço mediático não tenham contextualizado esses bons resultados, anunciando de forma simplista lucros recorde e propiciando julgamentos de actividade especulativa, a exclusivo benefício dos accionistas, com prejuízo dos consumidores e trabalhadores. De forma explícita ou subliminar, muitos artigos e comentários evidenciaram uma latente aversão ao lucro e à economia de mercado, ao esquecerem que o valor absoluto dos resultados só tem significado em função dos capitais próprios aplicados e das perspectivas de investimento.
Julgar os resultados apenas pelo seu valor absoluto induz que o capital não tem qualquer custo para os accionistas ou que para eles é indiferente a remuneração que esperam da aplicação do seu dinheiro.
A verdade é que o capital tem um custo, equivalente à perda do retorno alternativo que uma outra aplicação, dentro ou fora do país, pode trazer ao investidor. Um retorno desajustado entre nós quando, devido a custos de contexto e políticas públicas desacertadas, leva a que muito do já diminuto capital português seja drenado para mercados externos onde a remuneração é bem superior e respeita uma relação justa com os investidores.
Também por isso o nosso mercado de capitais vem definhando, com uma Bolsa onde só estão cotadas 35 a 40 empresas e apenas 16 delas constituem o índice principal, incapaz de atrair as poupanças nacionais ou estrangeiras em busca de rentabilidade e que apoiem o financiamento da economia.
Sem lucros que remunerem de forma justa o capital, não há grandes empresas, e sem grandes empresas, as que mais investem, inovam, pagam melhores salários e estruturam o tecido empresarial de milhares de outras, perde a economia e perdemos todos nós.
Hoje, o maior grupo português é quase três vezes inferior ao 10.º espanhol em volume de negócios e valor de mercado, quando em meados da década de 1960 a CUF era o maior grupo industrial da Península Ibérica e o 5.º maior conglomerado químico da Europa.
Sem lucro não há economia. Regenerar a ideia de lucro como justa e adequada remuneração do capital investido é verdadeiro serviço público.
