O mistério dos preços e outras estórias

Alberto Castro

Economista e professor universitário

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Os preços dos combustíveis são, regularmente, notícia, sobretudo quando sobem. Supondo a carga fiscal constante, as variações do preço final refletem, no essencial, a evolução do preço do petróleo. Uma consequência? O preço também desce, sempre pouco na perspetiva do consumidor, mas desce. Por exemplo, em fevereiro de 2025, o preço médio da gasolina simples rondava 1,8 €/litro. Um ano passado, antes da guerra no Irão, o valor andava próximo de 1,7€/l.

Agora, proponho-lhe um exercício: tirando os produtos sazonais, lembra-se de algum cujo preço tenha baixado no último ano? Talvez os ovos…

A resistência dos preços à descida está amplamente documentada. Quando muito, os preços podem deixar de subir, mesmo que as razões que deram origem à subida original (máxime os combustíveis) tenham desaparecido. Descer não descem. Nessas circunstâncias, é natural que os assalariados que, no entretanto, perderam poder de compra, o queiram repor, pressionando os custos de produção. O resto é história. Quando damos por ela, temos os bancos centrais a subir as taxas de juro para conter a inflação, com todo o cortejo de consequências.

Por essa razão, enquanto se admitir que o aumento dos preços dos combustíveis e outros fatores de produção é um mero epifenómeno, seria importante os governos adotarem medidas, direcionadas e transitórias, que evitem dar justificação a que a espiral inflacionista seja posta em marcha. O desenho de tais políticas deveria ter uma fundamentação empírica, incluindo perceber melhor o mecanismo da formação de preços e a estrutura de custos subjacente. Descontos, por um lado. Fiscalização, por outro. E, sempre, um estímulo a mais concorrência. E, em especial, avançar para as reformas que nos preparem para enfrentar as tempestades (climáticas ou energéticas).

Este esforço, somado ao que decorre das compensações para os efeitos dos temporais, vão pôr pressão sobre as contas. O que me traz à memória duas coisas. Primeira, a do sujeito que perante a ameaça “a carteira ou a vida”, exclama “o dinheiro faz-me tanta falta”! A segunda, e se tivéssemos um fundo soberano?

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