O mundo está um lugar estranho

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“Pensamos demasiadamente

e sentimos muito pouco.

Necessitamos mais de humildade

que de máquinas. Mais de bondade e ternura

que de inteligência. Sem isso,

a vida tornar-se-á violenta

e tudo se perderá.”

Charles Chaplin – O Grande Ditador 

Quase em completa contramão, deixo aqui o que se tornou um quase habitual disclaimer: não percebo rigorosamente nada de geopolítica - aliás, nem de geografia, nem de política, e, menos ainda, da arte da guerra, seja ela a que nível for. Também nunca achei  - e continuo a não achar - que os meios justifiquem todos os meios.  

Percebo, contudo, que a morte de inocentes, como a que tem sucedido amiúde, perante o nosso ar de total indiferença, sob a mera égide de que o regime em que viviam era contrário aos valores que defendemos não é uma causa que consiga abraçar.

Não há em causa o repúdio pelo regime que vigora ainda no Irão, aliás bastante similar ao de outros países que não mereceram - nem vão merecer, por motivos obviamente oportunistas - idêntica reacção.

Discordar de um qualquer regime totalitário é bastante diverso de o depor, a todo o custo e em contravenção das regras internacionais. Discordar de um regime totalitário é também bastante diverso de matar acriticamente pessoas e roubar os despojos, como têm sido confessadamente os desejos de Trump, o qual, para mais, afirma julgar-se merecedor de receber o Nobel da Paz. O mesmo Trump que, aquando da sua campanha eleitoral, afirmou pretender apenas “America first” e garantiu não ir iniciar conflito alguns, antes, pelo contrário, iria acabar com todos.

Longe de tudo isto constituir uma piada, depois de ter garantido conseguir acabar com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia numa semana e esta se manter inalterável, Trump e a sua companhia limitada decidiram iniciar outras, usando exactamente a mesma táctica que Putin, ou seja, não chamando pelo nome o que na realidade é: guerra. Na verdade, para chocar menos, usa-se o eufemismo e servem-se vítimas a magote, entre uma garfada e outra, ao jantar, em cada Telejornal.

Trata-se, há muito, de um processo de banalização do mal que normalmente precede épocas ainda mais negras. Habituámo-nos a ver a violência com a maior naturalidade, como se aqueles que começam estes conflitos se preocupassem realmente com as populações e, não, apenas com o espólio, tal como sucedia com os piratas.

A título de meros exemplos: a) alguém tem visto idêntica energia com o que se passa no Sudão, ou a circunstância de não ter petróleo ou metais preciosos faz diminuir a energia dos que afirmam querer salvar o mundo e reconduzi-la para os sítios onde podem lucrar; b) alguém tem visto ajuda humanitária a sério em Moçambique ou, porque não, no Afeganistão, país no qual uma prolongada guerra nada trouxe de útil à população.

A pergunta que deve ser feita a propósito de todas estas operações ou intervenções ou, com maior rigor, de matança de gente pouco recomendável, mas também de milhares de inocentes, é quem ganhou com as mesmas. E a resposta não abrange, sequer, a população.

Enquanto isto, Portugal permitiu o uso da Base das Lajes para parte da dita “operação”, sem ter esclarecido claramente em que moldes e com que fundamentos de Direito Internacional, curvando-se aos interesses de terceiros, eventualmente na mera expectativa de lhe darem algumas migalhas, sem sequer sermos chamados a responder se estamos na disposição de entrar num dos lados de uma barricada que não nos pertence.

Pela minha parte, deixo o repto de me darem uma explicação cabal sobre como acabámos envolvidos, desta feita de forma directa, numa nova operação ilegal e se já podemos atirar todas as normas de Direito Internacional para o lixo. É que, meus caros, é o que se tem passado. No dia em que normalizamos o mal, tornamo-nos iguais aos que combatemos. Importa não esquecer isto. 

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