O pessimismo justificado de Christine Lagarde
Em dezembro de 2016, a advogada e política francesa Christine Madeleine Odette Lagarde era a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI). Por essa altura, já tinha aturado uns bons anos dos programas de resgate de Portugal, Grécia e Irlanda. E mesmo assim, em 2016, numa entrevista à agência Bloomberg, descrevia-se como “uma pessoa, por natureza, muito otimista”.
Talvez o tempo tenha o condão de moderar o otimismo. Uma sucessão de anos duríssimos de combate à inflação, de subidas históricas das taxas de juro, com uma pandemia pelo meio e uma invasão da Rússia na Ucrânia são razões mais do que suficientes para temperar a predisposição “natural” de Lagarde para ver o mundo com cores mais risonhas. Se isso não chegou, bem-vindos a março de 2026 e a uma Guerra no Irão.
Numa entrevista publicada ontem pela revista britânica The Economist, o tom de Lagarde está mais amargo, mais sombrio. E muito, mas muito mais preocupado. Por uma vez, concordo - quase palavra por palavra - com a análise da atual presidente do BCE.
Há 26 dias que o mundo assiste ao desenrolar de uma guerra no Médio Oriente que está a fazer disparar os preços do petróleo (e depois dos combustíveis comuns e da aviação), graças ao estratégico bloqueio iraniano no Estreito de Ormuz - por onde passa mais de 20% do petróleo e gás natural que se vende no mundo inteiro. Independentemente dos desenvolvimentos políticos da situação - leia-se, a ação ou falta dela dos principais atores, os EUA e o Irão - os fatores que pressionam os preços do petróleo e do gás não vão aliviar. Por outras palavras, a guerra até pode “acabar” que as consequências do que já foi feito vão demorar muitos meses a passar.
Lagarde vai mais longe, dizendo que as perturbações no abastecimento de energia na região podem demorar anos e não meses. No que diz respeito aos danos causados, já se passou o ponto de não-retorno. Pior: os riscos relacionados com a Guerra no Irão parecem estar a ser subestimados. Por quem? Depreende-se que Lagarde se refere aos governos, às instituições comunitárias, às empresas, à banca, às várias alianças estratégicas espalhadas pelo Globo.
“Estamos confrontados com um verdadeiro choque… provavelmente além do que conseguimos imaginar neste momento.” Não há ponta de otimismo aqui.
O pior, diz Lagarde, é que o conflito apanha as economias do Euro com muito menor margem orçamental do que tinham em 2022 e 2023.
Talvez aqui valha a pena fazer uma menção honrosa. Portugal fechou o ano de 2025 com um excedente de 0,7% do PIB, bem acima dos 0,3% que o Governo tinha anunciado. O número poderia ter ficado acima de 1% sem despesas extraordinárias, como os apoios à Ucrânia, os suplementos a pensionistas e o PRR.
Este conflito e estes riscos poderiam ter-nos apanhado em anos piores no que toca às contas. Ou seja, com menos almofada do que temos agora. Motivo de regozijo? Calma. A guerra e aquilo que a Agência Internacional de Energia apelida como “o maior choque energético de sempre” apanha-nos ainda a tentar recompor-nos de um comboio de tempestades que dizimou milhares de habitações e agentes económicos de várias regiões do país, sobretudo no Centro.
Em suma, um ano de 2026 que já seria difícil tornou-se agora imprevisível. E, sem dúvida, merecedor do pessimismo de Christine Lagarde.
