O problema com a pensão de Centeno não é a pensão

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As notícias sucederam-se, a polémica instalou-se - com a preciosa ajuda do Chega, pois então - Mário Centeno não comenta, como disse ao Diário de Notícias, e Álvaro Santos Pereira ganhou uma dor de cabeça. O antigo governador do Banco de Portugal reformou-se da instituição com direito a pensão completa, antes de fazer 60 anos, mas que, segundo os juristas e especialistas, nada tem de ilegal, até porque Centeno já tem tempo de serviço suficiente para o poder fazer ao abrigo do que a lei permite.

É claro que podemos questionar o timing (político?) e também a decisão - embora pareça apenas bom senso não manter alguém no Banco de Portugal com uma função meramente administrativa. Sobretudo sendo um antigo governador, que dificilmente ocuparia outra posição.

No entanto, é preciso esclarecer e é por isso mesmo que Álvaro Santos Pereira irá ao Parlamento para que os deputados lhe coloquem todas as dúvidas que têm surgido. E bem, que afinal é para isso que servem os representantes do povo na casa da democracia.

O que não deixa de ser curioso, porém, são os adjetivos que ao longo dos últimos dias têm sido usados para descrever o salário - ou, agora, a pensão - auferido por Mário Centeno, enquanto governador do banco central. O meu preferido foi “chorudo”. Ora, a bem da verdade, Mário Centeno recebia de salário o mesmo que vários outros seus congéneres europeus, segundo a média que é possível calcular com os dados que são públicos. O governador do banco de França, por exemplo, até recebe o dobro do salário (o base são 310 mil euros brutos ao ano, mas geralmente ultrapassa os 500 mil, graças a uma série de benefícios).

"Devíamos aproveitar, para pensar se não gostaríamos todos de ter mais salários 'chorudos' no mercado"

No mesmo sentido, qualquer engenheiro sénior que trabalhe em empresas tecnológicas multinacionais - preferencialmente fora de Portugal - recebe facilmente salários anuais equivalentes ao de Mário Centeno. Diretores clínicos e chefes de departamentos hospitalares privados, em países desenvolvidos recebem frequentemente entre 250 mil e 500 mil euros, e sócios de grandes sociedades de advogados ganham muito mais do que isso. O mesmo para os partners de consultoras (mesmo em Portugal), pilotos de longo curso ou CEO de empresas que integrem o mercado de capitais.

Ou seja: os melhores profissionais recebem salários de acordo com aquilo que são as suas capacidades, responsabilidades e retorno. Algo que todos nós sabemos ser a única forma de garantir o melhor talento - aliás, é isso que exigimos repetidamente a empresas e governantes, que o salário em Portugal acompanhe aquilo que são as competências dos seus profissionais, porque é também a única forma de não termos os nossos talentos a fugir.

É, portanto, ligeiramente palerma que consideremos “chorudo” um salário que não chega aos 20 mil euros brutos. Claro que num país onde o salário médio é absurdamente baixo, 20 mil euros brutos parece-nos muito dinheiro. Mas basta olhar para todos os profissionais que na última década saíram de Portugal para descobrir que muitos deles estão a ganhar praticamente o mesmo - senão mais - que o governador do nosso banco central.

O que é ridículo é que continuemos a achar um salário de 20 mil euros “chorudo” quando se fala de um cargo de topo (há muitos países em que os CEO não o aceitariam por ser abaixo do seu escalão). Talvez devêssemos aproveitar, na verdade, esta ocasião para pensar se não gostaríamos todos de ter mais salários “chorudos” no mercado, para que os salários miseráveis com que muitos cidadãos têm de tentar sobreviver possam, finalmente, ser salários dignos.

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