O ‘SaaSpocalipse’ de fevereiro de 2026

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Nas primeiras seis semanas de 2026, o índice S&P 500 de Software e Serviços viu quase 1 bilião de dólares em valor de mercado evaporar-se. Só em 3 e 4 de fevereiro, o índice Nasdaq 100 perdeu quase 300 mil milhões de dólares em ações do setor de software e dados (ex: Salesforce, ServiceNow, Adobe, Workday, Intuit), no que analistas e investidores apelidaram de “SaaSpocalipse”. A tendência de queda já vinha de trás, tendo o “valor da empresa” (EBIDTA futuro estimado) do índice de software tecnológico da S&P América do Norte caído já >30% desde 2021.

A esperada “disrupção estrutural” da indústria de software começou em 12 de janeiro de 2026, com o lançamento oficial do Claude Cowork, da Anthropic, um agente de Inteligência Artificial (IA) para desktop capaz de gerir arquivos locais, navegar por interfaces corporativos complexos e implantar “subagentes paralelos” para lidar com tarefas massivas de entrada e análise de dados.

Em 30 de janeiro de 2026, a Anthropic lançou 11 plug-ins especializados de código aberto que permitem ao Claude Cowork lidar com tarefas específicas, como descoberta de documentos jurídicos, contabilidade tributária e prospeção automatizada de vendas. O Claude Cowork não apenas auxilia trabalhadores humanos, como executa fluxos de trabalho complexos de forma independente.

A consequente “compressão de licenças” - em que as empresas precisam de um número bem menor de licenças de software para realizar o mesmo volume de trabalho - desencadeou uma enorme reavaliação em todo o setor de tecnologia. As empresas fornecedoras de software especializado viram as suas ações cair a pique.

Na primeira semana de fevereiro, o contágio estendeu-se a empresas de “Software como Serviço” (SaaS) de uso geral, à medida que os departamentos de compras corporativos começaram a anunciar planos para “redimensionar” os seus conjuntos de software, citando os ganhos de eficiência proporcionados pela nova geração de ferramentas de IA autónomas. Claramente, os investidores esperam que uma ampla adoção de agentes IA (como o Claude Cowork) catalisem o desmantelamento dos alicerces do modelo de negócios de SaaS.

Este “SaaSpocalipse” marca a transição da “era da nuvem” para a “era dos agentes”. Nos últimos 20 anos, a indústria de software seguiu o modelo de “sistema de registo” - o software era onde os humanos inseriam e armazenavam dados.

O modelo de “sistema de ação”, introduzido pelo Claude Cowork, inverte essa lógica: o próprio “software”-agente IA executa o trabalho, e o humano apenas supervisiona. Essa mudança altera profundamente o rácio humanos / software que tem regido as empresas de tecnologia desde a década de 1990.

Se um agente de IA puder substituir o trabalho de cinco humanos, o mercado endereçável total (TAM) para softwares baseados em licenças diminui em 80%, a menos que essas empresas encontrem uma nova maneira de capturar valor.

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