Os desafios da banca

Francisco Jaime Quesado

Economista e Gestor – Especialista em Estratégia, Inovação e Competitividade

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As profundas alterações que a banca tem sofrido em Portugal suscitam uma reflexão sobre o novo papel que o sistema financeiro tem pela frente. Num contexto de uma mais exigente competitividade económica global, todos temos de estar mobilizados para definição de uma agenda que mobilize os agentes empresariais e outros para as restruturações que têm de ser levadas a cabo. Ou seja, os agentes empresariais, para utilizar a feliz expressão de Ram Charan numa conferência em Lisboa, “têm de reinventar a sua missão, alterar a estrutura de financiamento e projetar novos produtos e serviços para o futuro”. Precisamos mais do que nunca de uma banca voltada para o futuro e que se assuma como um acelerador de valor para a nossa economia.

Esse contrato de confiança entre o Sistema Financeiro e o Sistema Empresarial não pode, de forma alguma, assentar unicamente numa definição formal por decreto, avalizada pelas Autoridades Centrais — tem de se materializar na operacionalização efetiva de ações concretas, no dia a dia da atividade económica, centradas na ativação dos circuitos em que assenta a cadeia de valor da criação de riqueza e que envolve todos aqueles que conseguem acrescentar uma componente de diferenciação qualitativa na conceção de novos produtos e serviços: a banca tem de saber assumir de forma objetiva o seu papel de Parceiro Operacional ativo neste projeto coletivo de reinvenção da Economia Portuguesa e da sua capacidade de afirmação internacional.

São sobretudo duas as áreas que exigem uma intervenção sistémica — profunda renovação organizativa e estrutural dos setores (sobretudo) industriais e aposta integrada na utilização da Inovação como fator de alavancagem de criação de valor de mercado. A mobilização ativa dos atores económicos numa lógica de pacto estratégico operativo permanente terá de ser uma condição central no sucesso desta nova abordagem, sob pena de intervenções isoladas não conseguirem produzir, de facto, os efeitos desejados. Passado todo este tempo, a leitura dos resultados não é nada abonatória — excluindo os muito conhecidos e divulgados casos de reconversão interna e setorial conseguida com algum sucesso, na maior parte dos setores industriais clássicos não foi feita a renovação necessária e os fechos de empresas e perda de quota efetiva de alguns mercados é o resultado mais do que evidente.

Este novo contrato de confiança terá que se basear numa lógica de focalização em prioridades claras. Assegurar que as Empresas se reinventam como atores centrais duma nova aposta na criação de valor passa em primeiro lugar por um complexo, mas necessário, processo de reconversão do tecido empresarial nacional. Mas não basta. É de facto fundamental que os outros atores do Sistema, com particular incidência para a banca, assumam as suas responsabilidades.

O que está verdadeiramente em causa é a capacidade de o sistema voltar a ganhar capacidade de autofuncionamento em rede. Isso exige confiança para o futuro.

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