Ouvir as pessoas e a economia real

Nuno Vinha

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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Nos tempos do jornalismo de dados, da constante verificação de veracidade; das declarações exclusivamente nas redes sociais e dos vídeos ou áudios “deep-fake” é fácil perder o rumo e o enfoque certo: ouvir as pessoas. Humanos. Reais e genuínos.

Foi o que o DN/Dinheiro Vivo fez esta semana. Um comboio de tempestades em fevereiro e um conflito no Irão fizeram disparar os preços de muitos produtos, dos alimentos frescos aos combustíveis. Nada que os números do INE não venham a refletir daqui a umas semanas. Mas os números não contam a história de quem está a comprar menos porque o rendimento não estica; não mostra a angústia de quem, há um ano, vendia habitualmente sete bifes a uma família e agora apenas quatro.

Ouvir as pessoas - uma tradição que os 161 anos do DN têm honrado - dá-nos uma ideia da situação em inícios de abril. E interpretar as projeções dos responsáveis de entidades como o Banco Central Europeu e o Banco de Portugal dá-nos a perspetiva do que será o final deste ano. O cenário não é agradável.

No Boletim Económico de março, o Banco de Portugal reviu em alta a previsão da inflação em 2026, para os 2,8%. Mas num cenário adverso, de agravamento do conflito no Irão, o supervisor bancário admite que a inflação em Portugal pode aproximar-se dos 4,7%. É uma subida que não deixará de ter um impacto adicional significativo na vida e nos hábitos de consumo dos portugueses.

Do outro lado da equação, o BdP também projeta uma descida do crescimento do PIB para 1,8% (ou apenas 0,8% no cenário adverso).

"É preciso que o atual Governo de Luís Montenegro se prepare para o que resta do ano de 2026. Para isso, vai precisar de recompor as almofadas financeiras que usou no ano passado - e, na altura, com acerto"

Se a estes aumentos juntarmos uma potencial escalada da prestação da casa, à boleia das previsíveis subidas das taxas de juro no que resta do ano, e a possibilidade real de uma recessão na Europa (outra vez o fantasma começado por “R”…) temos os ingredientes para uma “tempestade perfeita” na carteira de muitos portugueses.

É preciso que o atual Governo de Luís Montenegro se prepare para o que resta do ano de 2026. Para isso, vai precisar de recompor as almofadas financeiras que usou no ano passado - e, na altura, com acerto - para intensificar a rota de redução de dívida pública. Esta dívida - que passou de 75,5% para 114% em três anos de crise financeira e de Governo de José Sócrates e que chegou aos 132,5% sob a troika, com o Governo de Pedro Passos Coelho - está atualmente nos 89%. O ministro Joaquim Miranda Sarmento prevê fechar a legislatura abaixo dos 87%.

Os efeitos positivos desta estratégia resultaram desde já na melhoria do rating de Portugal. Em março, a agência de rating Fitch alterou a perspetiva da dívida portuguesa para “positiva”. E a diminuição do peso da dívida reduz o montante que o Estado paga em juros, libertando recursos orçamentais que agora podem ser usados para apoiar a economia - empresas e contribuintes individuais - nos meses difíceis que aí vêm.

Mais importante (em termos estruturais): dívida pública e conta do Estado equilibradas; um sistema bancário prudente, justo e supervisionado de perto; apoios do Estado em setores produtivos com desequilíbrios de mercado; o uso eficaz, multiplicador e fiscalizado de fundos europeus; e uma carga fiscal que não castre a iniciativa empresarial e o consumo dos cidadãos. Eis cinco alicerces de qualquer economia que pretenda um crescimento saudável. Falta ainda concretizar uns quantos.

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