Ouvir os melhores; fazer melhor
Em 2024, quando cheias violentas provocaram uma das maiores tragédias da última década em Espanha, os nossos corações contraíram-se de dor pelos nossos vizinhos - e bem! Que nunca percamos a humanidade!
Na região de Valência morreram cerca de 200 pessoas, vítimas do mau tempo, e os custos materiais ascenderam a 17 mil milhões de euros. Dezassete mil milhões de euros.
Este ano, calhou-nos, a nós, um comboio de tempestades que, apesar de previsto, foi difícil de conter. Podemos tentar encontrar algum conforto no facto de, para já, o número de vítimas mortais ser 90% inferior ao registado em Espanha, mas devemos estar preocupados.
Recordemos que a tempestade Kristin, o mais violento fenómeno natural das últimas décadas, trouxe chuvas torrenciais, mas, acima de tudo, ventos de 170km/hora na noite de 27 para 28 de janeiro. Para efeitos de comparação, pense nisto: quando Ayrton Senna ganhou o seu primeiro Grande Prémio de F1, em 1985, fê-lo no Estoril, a uma velocidade média de 145km/hora. Ou seja, ventos como os que Kristin provocou são, na sua essência, impossíveis de parar. A prevenção possível não conseguia garantir que telhados, árvores e postes de alta tensão não iam quebrar. O problema é que nós já sabíamos isto. Há anos que especialistas avisam para o agravar dos fenómenos extremos, para a sua cadência cada vez menos espaçada e para o absoluto desrespeito da construção desenfreada e desregrada. Onde empresários teimam em ver entraves ao (seu) desenvolvimento económico, ignorando que a natureza é um organismo vivo, a Terra vê e sente pressão.
Ora, não é preciso ter um curso de Engenharia Ambiental para perceber coisas simples como: não se deve construir em leitos de cheia - e muito menos continuar a fazê-lo ao longo de décadas; a alteração da flora e da fauna desequilibra os solos e na verdade todo o sistema da Terra; o nosso modo de vida tem impactos profundos no equilíbrio do meio ambiente… não é, por isso, também de estranhar que em Alcácer do Sal tenha havido várias pessoas a dizer ao DN que “o rio só veio tomar conta do que é dele”, e que barragens e diques tenham rebentado com uma pressão que nunca imaginámos que iam sofrer.
Os efeitos dominó de cada um dos acontecimentos surpreendeu-nos a todos porque não temos estado atentos. Andamos há décadas a falar de reordenamento do território, da constituição de um fundo para catástrofes, da necessidade de criar redundâncias nos sistemas de comunicação - passaram mais de DUAS SEMANAS e há ainda pessoas sem energia e sem comunicações. Em pleno século XXI -, de reforço das infraestruturas críticas. Andamos há anos, também, a assobiar para o lado, à espera de que nada aconteça, a fingir que os incêndios que têm destruído Portugal não são eventos extremos, a aguardar que o próximo Governo resolva questões que demoram décadas a implementar.
Surpreendemo-nos - ou fingimos? - a cada evento extremo, como se fosse totalmente inesperado, e indignamo-nos com os custos que cada um deles provoca à economia. A propósito, também não é preciso ter um curso superior para saber que os 2,5 mil milhões de euros que o Executivo alocou à resposta às tempestades vão ser claramente insuficientes. Já para não falar no tanto que será irrecuperável: as vidas, o património histórico que se perdeu, os investimentos financeiros, físicos e emocionais de milhares de famílias que dedicaram vidas a ter algo seu, e que o viram desaparecer no espaço de uma ou duas horas.
A cada crise que nos acontece - a pandemia, a guerra na Ucrânia, o Apagão - prometemos ser melhores. Os nossos governantes prometem mais atenção, mais prevenção, mais cuidado, mais antecipação. A cada crise que nos acontece, somos todos piores: a população dessensibiliza (não é egoísmo, é sobrevivência, porque ninguém aguenta tanta dor) e as autoridades fazem pior. Porque ao não cuidar, ao não prevenir e ao não antecipar, vamos acumulando desgaste, custos e falta de capacidade de resposta.
Ninguém consegue travar um vento de 170km/hora. Mas um país que se diz desenvolvido, que adora ser palco de Web Summits e se gaba de tantos talentos espalhados pelo mundo tem, pelo menos, uma obrigação. Cívica e moral: tem o dever de ouvir os melhores e fazer, efetivamente, aquilo que quem mais sabe recomenda. Porque se continuarmos a navegar ao sabor de políticas e interesses, como temos feito até aqui, não deixaremos nunca de ser este país de tristeza e de fado. Que, lamentavelmente, até parece que nos orgulhamos de ser.
