Precisamos de menos ruído e de mais decisões

Margarida Vaqueiro Lopes

Subdiretora do Diário de Notícias e diretora executiva do Dinheiro Vivo

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Os nossos deputados passaram a tarde de ontem a apresentar ideias, na Assembleia da República, para ajudar os cidadãos a fazer face ao aumento do custo de vida, que tem sido mais pronunciado desde o início deste ano. Em cima da mesa voltaram a estar propostas de redução da taxa de IVA sobre os combustíveis e sobre o cabaz alimentar (para zero, neste caso); transformar suplementos extraordinários dos pensionistas em permanentes; abolir as portagens nas pontes 25 de Abril e Vasco da Gama; controlar preços em serviços essenciais entre outras que têm como principal objetivo ajudar as famílias no imediato, garantindo-lhes mais liquidez e um final de mês mais tranquilo.

Tudo isto foi, como tem sido hábito, discutido entre insultos, apartes, acusações e linguagem mais ou menos própria. Vários partidos, aliás, apresentaram ideias semelhantes – como o IVA zero ou a redução do IVA sobre combustíveis e a abolição de portagens – mas tiveram dificuldades em entender-se sobre a sua aprovação. Mesmo que queiram todos o mesmo.

Enquanto o ministro das Finanças ia tentando explicar o impacto que medidas desta natureza têm nas contas do Estado, a tarde foi-se arrastando com o subir de tom da discussão entre os vários ocupantes do hemiciclo. No final da tarde, porém, os portugueses viram poucas coisas decididas, enquanto as suas carteiras vão continuando a ficar mais leves a cada dia que passa. E o cenário que se adivinha não é particularmente tranquilizador: nos mercados, o ambiente continua tenso, com o petróleo a negociar acima dos 105 dólares e a dar sinais de que vai continuar a subir, na exata proporção em que escalam as tensões entre EUA e Irão; os investidores seguem preocupados, e têm estado a penalizar os próprios países. Durante o dia de ontem, as obrigações do Tesouro portuguesas a 10 anos atingiram níveis de janeiro de 2017, enquanto nos EUA os juros das obrigações do Tesouro dos EUA da mesma maturidade subiram para 5,145%, o valor mais alto desde a crise financeira de 2008.

Depois de, na semana passada, o CEO da gigante Chevron ter, publicamente, admitido que é muito possível que o mundo esteja a enfrentar uma verdadeira crise energética, e que as medidas que até agora foram tomadas deixaram de ser válidas – até porque o mundo não estava preparado para um período tão longo de tensões e conflitos – os sinais que continuam a chegar lá de fora têm pouco de animador. Neste momento, como em vários outros da história, está em cima da mesa o instinto de sobrevivência, seja das nações ou das pessoas. E isso significa que podemos estar a entrar naquela perigosa fase do “cada um por si”.

Por isso mesmo e, como aliás já escrevemos nesta mesma página do Dinheiro Vivo, torna-se cada vez mais relevante tornarmo-nos o mais autossuficientes possível, em Portugal, para que não estejamos tão expostos ao cenário internacional. Ou seja, torna-se particularmente relevante nesta altura que os nossos governantes e os nossos representantes na Assembleia da República tenham ainda mais presente as suas funções: é hora de esquecer tudo aquilo que os separa, de deixar de lado os insultos, a falta de educação, os sentimentos mais ou menos pessoais que nutrem pelos seus opositores políticos, e centrarem-se naquilo que devia ser um desígnio nacional: garantir que os cidadãos que prometeram proteger são ajudados pelas medidas sérias, sensatas e necessárias que têm de ser tomadas com urgência.

  No meio deste teatro ruidoso, o que verdadeiramente está em causa não é a vitória de um partido sobre outro, mas a capacidade de Portugal resistir a um mundo que já não oferece tréguas. A crise energética, a escalada dos mercados e o aperto diário nas carteiras dos portugueses exigem um Parlamento que saiba estar à altura do momento — não um palco de rivalidades, mas um centro de decisão. É precisamente agora que os nossos representantes têm de abandonar o conforto das celeumas vazias e assumir o compromisso que fizeram: proteger quem vive cá fora, longe das bancadas e das câmaras, e que não pode esperar mais por medidas sérias, estruturais e corajosas. O país não precisa de mais discussões; precisa de ação.

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