Queremos mesmo acabar com o trabalho precário?

Margarida Vaqueiro Lopes

Editora-Executiva do Diário de Notícias

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É quarta-feira à noite e está a chover. Não temos vontade de fazer o jantar, nem de sair para jantar. A solução? Uma plataforma online que nos permita encomendar a comida e recebê-la, em minutos, no conforto de nossa casa. Perfeito.

É sábado, queremos ir sair com os amigos e não levar o carro – é verão, de certeza que nos vai dar vontade de beber aquele copo que não nos permitirá pegar no carro em segurança. A solução? Chamar um TVDE, pagar e aproveitar o dia.

Trabalhamos imensas horas por semana e, quando chegamos a casa, naturalmente que não temos vontade – nem capacidade – para a limpar e arrumar, além de cozinhar para o resto dos dias. A solução? Encontrar alguém que possa ir, durante algumas horas por semana, ajudar-nos nessas tarefas. De preferência, alguém que nos não obrigue a assinar um contrato, porque assim é mais dinheiro que fica para a pessoa e menos aquele que nós pagamos.

Estes são apenas três exemplos, mas podia continuar a enumerar muitos outros, que vão desde as pessoas que apanham a fruta e os legumes de grande parte dos campos nacionais, até às que desempenham tarefas em instituições como lares de idosos ilegais e afins.

Os dados mais recentes divulgados pela Pordata, no passado dia 1 de maio, davam conta de que 34% dos trabalhadores estrangeiros em Portugal tem está em situação de precariedade – e estes dados referem-se apenas aos que têm contratos temporários, excluindo, portanto, aqueles que nem sequer têm um vínculo laboral válido. Entre os trabalhadores portugueses, esse número cai para 14%.

Já os dados do Eurostat mostram que Portugal está no quarto lugar do ranking de países com maior percentagem de jovens entre os 15 e os 29 anos com empregos temporários: são 39,4%.

Quando falamos de trabalho precário, não estamos a falar de coisas aleatórias. Estamos a falar de caixas de supermercado, tarefeiros de vários serviços que servem o público, motoristas de TVDE, estafetas, empregados de limpeza, repositores de supermercado, trabalhadores agrícolas, funcionários da restauração e da hotelaria.

Falamos, sobretudo, de profissões que não exigem qualificações formais (ou exigem um nível baixo) e que, demasiadas vezes, aproveitam para explorar os mais frágeis da sociedade. E todos nós nos indignamos com estas questões – e bem. Porque trabalho precário é sinal, também, de uma sociedade e uma economia pouco amadurecidas, mais vulneráveis e menos competitivas.

Mas desengane-se, caro leitor, se acredita que pode criticar sem ter noção de que também contribui para o problema. A verdade é que, de cada vez que ‘contrata’ uma mulher-a-dias sem um contrato, está a contribuir para esta questão. A verdade é que de cada vez que escolhe uma plataforma TVDE ao invés, por exemplo, de um táxi, está a contribuir para esta questão. De cada vez que pede uma entrega de comida via aplicações digitais, está a contribuir para esta questão.

A solução é, então, deixar de o fazer? Eventualmente, não. Mas temos todos de ter a perceção de que somos todos, enquanto sociedade, que promovemos também este modelo económico que encontra vantagens – vulgarmente conhecido como “serviços mais baratos” – na exploração dos mais fracos. O princípio é o mesmo que está por detrás da produção de fast-fashion: todos nós conseguimos comprar roupa todos os meses, a preços que podemos pagar, porque em algum lugar do mundo há trabalhadores a receber muito menos do que merecem para que nós vistamos um par de calças que nos custa €20.

Numa altura em que tanto se discute a nova lei laboral, importa pouco continuarmos a discuti-la na praça pública, porque temos pouca mão no que será possível decidir, no final do dia. Mas importa muito aproveitarmos para pensar em como somos tão rápidos a criticar a ideia de precariedade – que devemos criticar sempre! – mas nos esquecemos de como contribuímos, pelo nosso modo de vida, para que ela seja cada vez mais inevitável.

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