Recrutar pessoas como são (na sua totalidade) é a chave para o sucesso

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Há uns meses, no âmbito de um processo de recrutamento, recebi um CV de uma pessoa que conhecia e vi que tinha omitido o que sabia ser uma parte fundamental da vida do candidato. Confrontado com o tema, disse-me: “Acabei por apagar essa parte porque em processos de recrutamentos anteriores disseram que não era profissional”.

Falamos de voluntariado e organização de campos de férias durante vários anos seguidos. Este acontecimento, apesar dos mais de dez anos na área de pessoas e com muitas e muitas horas de trabalho, deixou-me acima de tudo preocupada com o estado do recrutamento nas nossas organizações, apesar do tanto que tem sido estudado sobre o tema.

Se queremos as melhores pessoas, temos de as procurar conhecer no seu todo e perceber se terão os valores, as atitudes e os comportamentos que melhor se adequem à nossa necessidade e realidade atual (e futura). Só o conseguiremos se formos mais a fundo nas suas diversas dimensões (pessoal, social e profissional).

Achar que não é profissional colocar no CV uma parte tão fundamental da experiência de vida de um candidato, como os seus vários anos de dedicação ao outro, é reduzir a avaliação às competências (que deverão naturalmente ser validadas), mas que, por si só, não nos permitem avaliar a consistência dos bons desempenhos a curto, médio e longo prazo e o alinhamento do candidato com a cultura da organização. É certo que entrar na área da avaliação das atitudes em sede de entrevista dos candidatos é muito mais exigente para o recrutador porque requer uma maior preparação e uma maior entrega ao processo de entrevista do candidato: implica levar o candidato a partilhar a fundo as suas experiências, aprendizagens e a forma como agiu caso a caso para que possamos avaliar os comportamentos e atitudes esperadas em ambiente de trabalho.

E eis a grande questão: como recrutamos as pessoas com a atitude certa para a nossa organização e para a função em concreto que queremos recrutar?

  1. Se não sabemos aquilo de que precisamos, dificilmente teremos o que queremos. Cada cultura é única, e também as atitudes de cada organização são únicas e muito próprias pelo que tem de ser efetivamente feito à medida. Para recrutar atitude, temos de ter claro quais são as cinco a sete atitudes desejáveis – para tal devemos entrevistar as pessoas que tenham desempenhos excelentes e as atitudes desejáveis e observar o que fazem, como agem e, por oposto, identificar os 5 a 7 comportamentos que não queremos ver acontecer.

  2. Preparar as perguntas que nos levam à descoberta das atitudes desejáveis nos candidatos, que façam com que saia do guião de preparação de entrevista, colocando-os perante as situações cujas respostas nos permitam identificar alguns padrões.

  3. Incluir a avaliação dessas atitudes na grelha de avaliação dos candidatos com uma escala que permita distinguir os vários candidatos.

Recrutar pela atitude é crítico e urgente se queremos organizações felizes e com sucesso sustentável. É a condição “sine qua non” do sucesso, do desempenho individual, da equipa e da própria organização bem como da cultura e clima organizacional.

Se pensarmos no impacto que tem nas nossas organizações e, como tal na nossa vida, pessoas negativas, que culpam os outros, que não têm iniciativa, que procrastinam, resistem à mudança, vivem do ego e/ou posição hierárquica, vimos claramente o que não queremos que nos rodeie e também que não há aqui um tema de competências técnicas ou capacidades - mas, de atitude.


Professora de Fator Humano na Organização, na AESE Business School.

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