Resiliência económica: como lidar com novas catástrofes

Carlos Brito

Presidente da Ordem dos Economistas - Norte

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Portugal habituou-se a reagir às catástrofes naturais como se fossem acontecimentos excecionais. No entanto, a frequência crescente de fenómenos extremos - tempestades, incêndios, secas prolongadas ou cheias súbitas - demonstra precisamente o contrário: o risco climático deixou de ser episódico para se tornar estrutural. Persistir numa lógica reativa significa aceitar perdas económicas recorrentes, pressão acrescida sobre as contas públicas e fragilidade social acumulada.

Apesar de a economia portuguesa apresentar hoje maior robustez macroeconómica e capacidade institucional do que no passado, continua insuficientemente preparada para enfrentar eventos extremos. O investimento anual em adaptação climática permanece aquém do necessário (...). Um estudo recente do McKinsey Global Institute indica que Portugal investe cerca de 170 milhões de euros anuais em medidas de adaptação ao risco climático, o que representa apenas 43% do necessário para nos equipararmos aos níveis de proteção das economias mais desenvolvidas. (...).

Os setores mais expostos ilustram bem esta vulnerabilidade. Agricultura, floresta, turismo, energia, telecomunicações ou logística dependem diretamente das condições naturais ou da continuidade de redes físicas críticas. Quando estas falham, os impactos propagam-se rapidamente ao emprego, às exportações e à confiança dos investidores. A resiliência económica deixou, por isso, de ser um conceito ambiental para passar a ser um imperativo de competitividade.

Preparar o futuro exige uma mudança estrutural. Investir em infraestruturas mais robustas, integrar o risco climático no planeamento territorial e nas decisões de investimento, reforçar mecanismos de seguro e promover planos de continuidade nas empresas são passos essenciais. Mas a verdadeira transformação reside na capacidade de antecipação, pois prevenir custa sempre menos, em termos económicos, sociais e ambientais, do que reconstruir.

Aqui, o papel dos poderes públicos é determinante - no ordenamento do território, no investimento em infraestruturas resilientes, na criação de incentivos e na mobilização de financiamento. Mas os agentes privados são igualmente centrais, na medida em que devem incorporar o risco nas estratégias de gestão, inovação e cadeias de valor. A resiliência constrói-se em rede, não por decreto.

Efetivamente, este não é um “problema” exclusivo do Estado. Também a economia privada se tem de preparar para este tipo de situações, minimizando os riscos potenciais. Entre as medidas concretas ao alcance das empresas destacam-se a contratação de seguros adequados a riscos naturais (...). Acresce ainda a necessidade de se adotarem estratégias de monitorização e alerta precoce, de digitalização de operações críticas e da cooperação setorial para partilha de informação e recursos, reforçando a capacidade coletiva de resposta e recuperação perante eventos extremos.

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