“Se não têm pão, que comam brioches”
Desde 2020, sobretudo, que em Portugal temos assistido à escalada dos preços da habitação, dos bens alimentares essenciais, dos prémios de seguros de saúde e dos combustíveis. Se os primeiros aumentos foram, como é natural, sendo absorvidos sem muito queixume, quando há subidas sucessivas em cima de aumentos expressivos, o caso muda de figura.
A cada dia 1 de janeiro, com ou sem fatores (ou guerras) excecionais que os expliquem, temo-nos deparado com o mesmo cenário: estamos a pagar cada vez mais por bens e serviços, enquanto os salários se mantêm desesperadamente iguais.
O leite e o arroz registaram subidas entre os 30% e os 60% (consoante o tipo e a marca), a carne de vaca está cerca de 50% mais cara, o frango regista subidas que podem chegar aos 45% e os ovos dispararam cerca de 70%.
Se olharmos para os legumes o cenário é igual, e o mesmo acontece em produtos como pasta de dentes – que, por alguma razão, que não entendo, não entra num cabaz de bens essenciais.
Do lado dos impostos, as alterações que existem têm genericamente penalizado o consumidor que vê, ainda, os serviços públicos a deteriorarem-se: meses de espera para consultas de especialidade no SNS, escolas públicas com falhas estruturais e falta de professores, tribunais que desesperam qualquer pessoa que queira justiça. Os privados vão aproveitando a escassez de oferta pública, e também eles sobem preços: consultas privadas, escolas particulares, seguros de saúde… tudo está mais caro desde 2020, e a qualidade não tem acompanhado os aumentos.
Infelizmente, do lado dos salários, o cenário é exatamente o oposto: apesar das subidas expressivas do aumento nominal, a pressão da inflação atirou os portugueses para uma situação que é insustentável a médio prazo: entre 2020 e 2025, houve perda real do poder de compra, e só em 2026 havia expectativa de que houvesse uma inversão. Pelo menos até os EUA decidirem que era boa ideia começar uma guerra no Médio Oriente, o que deverá atirar, mais uma vez, as famílias para dificuldades - se o que tem acontecido nos combustíveis for apenas o início, não se augura nada de bom.
Dados da Segurança Social mostram que, no ano passado, 79,65% dos salários auferidos em Portugal eram iguais ou inferiores a 1500 euros brutos. Creio que não é preciso saber muito de matemática para conseguir chegar à conclusão óbvia deste texto: se tudo o que precisamos de comprar aumenta de preço, mas o nosso salário se mantém (quando não diminuiu, graças à inflação), há uma impossibilidade técnica de os portugueses não estarem sempre a “viver acima das suas possibilidades”, como a OCDE gosta de sugerir que acontece por cá.
Em resumo, talvez um dia alguém (entre governantes, sindicatos, empresários e especialistas que ditam as regras) descubra a fórmula mágica que permite pagar renda, supermercado, saúde e combustível com salários que teimam em não acompanhar a realidade. Até lá, resta-nos o consolo de saber que, se o pão ficar demasiado caro, há sempre brioches.
