Sinais de esperança europeia
Durante demasiado tempo, sobretudo nos últimos anos, falar da Europa tem sido sinónimo de fragilidade: crescimento débil, dependências estratégicas excessivas e hesitações políticas. A sucessão de choques — pandemia, guerra na Ucrânia, crise energética e inflação — reforçou essa perceção. No entanto, os dados mais recentes sugerem que o continente está a entrar numa nova fase. Não livre de riscos, mas estruturalmente mais sólida. Há, hoje, alguns sinais de otimismo prudente, no futuro da Europa num mundo complexo e volátil.
A primeira inferência vem da Alemanha. Após vários anos de estagnação, a maior economia europeia prepara-se para regressar a um crescimento mais robusto em 2026. O choque energético expôs fragilidades antigas, mas também forçou uma resposta há muito adiada: investimento público em infraestruturas e defesa, recuperação da produção industrial e reativação de capacidade produtiva ociosa. Sem constrangimentos financeiros imediatos, a Alemanha volta a assumir o seu papel de motor europeu.
A segunda razão é o aparente surgimento de uma dinâmica mais europeia, e menos dependente do exterior. O reforço da procura e da produção intraeuropeias, em particular nos sectores estratégicos, traduz um movimento gradual — mas real — em direção a maior autonomia. O aumento do investimento em defesa, energia e arquitetura financeira não elimina vulnerabilidades estruturais, mas reduz dependências críticas e reforça a coesão económica da União.
Um terceiro sinal de esperança resulta da combinação entre tecnologia e indústria. A Europa começa a corrigir uma das suas fragilidades mais apontadas: a dificuldade em transformar inovação em escala produtiva. A inteligência artificial deixou de ser um exclusivo americano ou asiático, com a Europa a atrair investimento relevante e a registar níveis de adoção elevados por empresas e cidadãos. Em paralelo, sectores industriais estratégicos mostram sinais claros de revitalização. A aeronáutica, por exemplo, mantém liderança global, com carteiras de encomendas cheias e produção em aceleração. Esta convergência entre modernização tecnológica e base industrial desafia a ideia de uma Europa condenada à estagnação.
Por fim salientar o regresso progressivo do consumidor europeu. Apesar do choque inflacionista recente, o mercado de trabalho revelou uma resiliência notável e o poder de compra começa a recuperar. As intenções de consumo atingiram níveis não observados desde 2022, criando condições para um crescimento mais equilibrado e menos dependente apenas do investimento público ou das exportações. Finalmente, sublinhar a melhoria da perceção externa sobre a Europa. A crise da dívida ficou para trás, os desequilíbrios foram reduzidos e a convergência das taxas de juro reforça a estabilidade da Zona Euro. A Europa continua a ser construída em tempos de crise. A diferença é que, desta vez, está a responder com investimento, coordenação e ambição estratégica. Isso não garante sucesso — mas torna o pessimismo automático cada vez menos convincente.
