‘Wilkommen, Lufthansa’
A decisão está tomada, ao fim de mais de um ano, e pode ser um dos capítulos finais de uma das novelas mais longas da história empresarial portuguesa. A Lufthansa foi a escolhida para comprar a posição minoritária da TAP, numa operação que pode chegar aos 49,9% da companhia – isto porque o Estado mantém 50,1% do capital, enquanto estão reservados 5% para os trabalhadores da TAP. A Lufthansa fica, numa primeira fase, com uma posição de 44,9%, que pode chegar aos 49,9% se os trabalhadores não subscreverem a totalidade da sua participação, uma vez que tem direito de preferência sobre essa posição.
Esta quinta-feira, 15 de outubro, ao final da manhã, numa conversa com investidores, os responsáveis da Lufthansa adiantavam mesmo que estão prontos para assumir uma posição maioritária se o cenário se puser em cima da mesa – como o jornalista Nuno Braga lhe explica no Dinheiro Vivo.
Isto significa, repito, que pode estar a chegar ao fim uma novela que não só já vai longa, como já custou muito dinheiro aos contribuintes desde, pelo menos, 2015 – para não ir mais atrás na História – quando o Governo de Pedro Passos Coelho concluiu a venda de 61% da TAP ao consórcio Atlantic Gateway, de David Neeleman e Humberto Pedrosa. Na época, com o país sob intervenção da troika a decisão foi tomada porque a empresa estava fortemente endividada e Portugal tinha de organizar as contas. Mas assim que António Costa chegou ao Governo, começou a tratar de tudo para reaver a posição maioritária na companhia área nacional: em 2017, o Estado voltou a deter 50% do capital da TAP, através de uma operação complexa que fez com que público e privados passassem a deter a companhia.
Até que chegou a pandemia e a maior crise mundial da aviação: o Estado volta a intervir e inicia o processo de nacionalização da TAP. Injetam-se 3,2 mil milhões na companhia, despedem-se pessoas, cortam-se custos e reduz-se operação. Até que, em 2023, o Executivo aprova a venda de até 49,9% do capital da TAP, mantendo o Estado como acionista maioritário – uma posição que Montenegro admitiu, esta quarta-feira, rever.
E é precisamente por isso que ainda não chegámos ao capítulo final desta história – porque a TAP tem tido a capacidade de dividir a opinião de governantes, opinião pública e até de empresários.
Ninguém sabe o que trará este novo episódio da vida da companhia. O Governo garante que vai ser positivo, e que as exigências feitas ao comprador asseguram isso mesmo – entre elas a manutenção dos trabalhadores e da ligação aos mercados estratégicos e a preservação do hub em Lisboa. A Lufthansa alinha pela mesma bitola e afirma até que vai transformar-se num dos melhores grupos da aviação mundial.
Os especialistas e comentadores, naturalmente, têm muitas dúvidas. O que não deixa de ser curioso: porque os mesmos que regularmente apontam a Alemanha e a sua economia, tecido empresarial e capacidade de criação de riqueza como exemplos a seguir, parecem agora ter algum medo de um acionista que chega com experiência, capital e um plano para fazer a TAP crescer. Algo que, diga-se, é muito necessário. Num país que anda sempre a falar do potencial adiado e da qualidade das suas empresas, esta é a hora para mostrar o que vale uma das companhias que tanto dinheiro público já absorveu.
Porque uma coisa é certa: os alemães também são conhecidos por conseguir que as suas companhias criem valor para o acionista. Aliás, é bom lembrar que a Lufthansa demorou cerca de 17 meses a reembolsar integralmente os apoios financeiros (foram cerca de 9 mil milhões) recebidos do Estado alemão durante a pandemia, concluindo o processo em novembro de 2021. Por cá, assumiu-se – Governo e TAP –, ainda que discretamente, que os apoios de 3,2 mil milhões que a empresa portuguesa recebeu dos contribuintes, não seriam para ser devolvidos.
Mais uma vez, esta é a hora de mostrar o que a gestão, os trabalhadores e a atividade da TAP valem. Se valerem tanto como se diz, e esperamos todos que sim, certamente a Lufthansa agradecerá e manterá o rumo.
