Oposição exige explicações a Costa e no PS já se fala em remodelação

Ministro das Infraestruturas diz que tem todas as condições para continuar no Governo. Oposição aponta a mira ao primeiro-ministro e exige uma tomada de posição do líder do Executivo, que se mantém em silêncio. Marcelo também quer ouvir Costa.
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No dia em que João Galamba garantiu que tem "todas as condições" para continuar no Governo, a oposição virou-se para António Costa e exige ao primeiro-ministro que venha dar explicações ao país sobre o caso que envolve o ministro das Infraestruturas. O mesmo se prepara para fazer o Presidente da República, que ontem recusou comentar o caso da exoneração do ex-adjunto do ministério, afirmando que a primeira pessoa com quem falará sobre assunto é o primeiro-ministro - que até à hora de fecho desta edição [do DN] se mantinha em silêncio.

Os estilhaços de mais um caso que tem como pano de fundo a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à gestão da TAP já estão às portas de São Bento, com a revelação de que o SIS - o Serviço de Informações - foi chamado para recuperar o computador que Frederico Pinheiro, o ex-adjunto exonerado na última quarta-feira, por "comportamentos incompatíveis com os deveres e responsabilidades" do cargo, levou do ministério. Ontem, em conferência de imprensa, João Galamba confirmou o contacto com os serviços de informação, justificando que o computador tinha um "amplo acervo de documentos classificados".

Segundo afirmou o ministro das Infraestruturas, o alegado furto do computador foi comunicado ao SIS e à PJ, que "são as entidades que tratam da proteção de dados e cibersegurança", depois de o próprio João Galamba ter consultado outros membros do Governo. "Liguei ao primeiro-ministro, que não atendeu, julgo que estava a conduzir, liguei ao secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, a quem reportei este facto [o alegado furto do computador] e que disse que devia falar com a ministra da Justiça, o que fiz, e disseram-me que devia comunicar estes factos àquelas duas entidades [SIS e PJ]", disse Galamba, escusando-se a comentar o que aconteceu depois - "As autoridades competentes fizeram o que entenderam dever fazer. A minha chefe de gabinete apenas denunciou o roubo de um equipamento do Estado com informações confidenciais".

João Galamba negou a versão de Frederico Pinheiro de que tentou ocultar informação à CPI sobre as reuniões ocorridas em janeiro com a CEO da TAP, nas vésperas de Christine Ourmières-Widener ir ao Parlamento dar explicações, pela primeira vez, sobre a saída de Alexandra Reis da administração da companhia aérea. O ministério "nunca quis ocultar quaisquer notas à CPI", garantiu o ministro, falando em "factos cristalinos" que "demonstram à saciedade os esforços de todos os elementos da equipa, insistências reiteradas para que tudo fosse recolhido".

No relato feito ontem, João Galamba confirmou que teve uma reunião com Christine Ourmières-Widener a 16 de janeiro - um encontro que não tinha sido tornado público até à última sexta-feira, quando foi revelado no comunicado emitido por Frederico Pinheiro. Galamba admitiu que foi ele próprio quem comunicou à CEO da TAP a realização, no dia seguinte, de uma reunião preparatória da audição, na qual viriam a estar presentes Frederico Pinheiro e o deputado socialista Carlos Pereira (mais tarde coordenador do PS na CPI, que entretanto deixou precisamente devido a esta polémica reunião). "Eu disse-lhe "olhe, eu tenho um pedido do grupo parlamentar" (...) não sei, se quiser participar, pode participar", relatou Galamba. Christine Ourmières-Widener não terá confirmado a sua presença nesse momento, mas na tarde do mesmo dia, num contacto com Frederico Pinheiro. Neste ponto, Galamba nega que haja contradições com o comunicado que emitiu no início de abril , dizendo então que tinha sido informado do interesse da CEO da TAP em participar na reunião - "Eu de facto fui [informado], porque tenho mensagem do doutor Frederico Pinheiro a dizer "João, a CEO quer participar na reunião, pode?" e eu respondo "pode"".

Se as duas versões são divergentes quanto ao que se passou na reunião de 17 de janeiro - Frederico Pinheiro diz que foram combinadas as perguntas e respostas a dar na audição, Galamba rejeita esse cenário -, é a partir do que aconteceu no início de abril que as duas versões entram em completa contradição. Galamba diz que houve uma reunião do gabinete a 5 de abril em que foram pedidos todos os elementos que houvesse sobre a reunião. "Nenhum [dos presentes] deu indicação de existirem elementos documentais, nem de ter havido combinação de perguntas e respostas [na reunião com a CEO da TAP]", afirmou o ministro, sublinhando que há quatro testemunhas desse encontro. Galamba diz que só a 24 de abril é que o ex-adjunto informou ter notas dessa reunião e que lhe foi solicitado que as entregasse, o que obrigou o ministério a solicitar à CPI o adiamento do prazo de entrega. Mesmo assim, alegou, o então adjunto só deu resposta ao pedido a 26 de abril. O processo acabaria com o que qualificou como "bárbaras" agressões a membros do seu gabinete por parte de Frederico Pinheiro, quando este tentou reaver o computador que lhe estava atribuído - na versão do ex-adjunto para recolher as notas da reunião, das quais garante ter dado conhecimento atempado a João Galamba.

As explicações de Galamba não convenceram a oposição, com IL, BE e PAN a exigirem que seja o próprio primeiro-ministro a dar explicações. Rui Rocha apontou o "enorme silêncio" de António Costa, acusando o primeiro-ministro de "cobardia política". Catarina Martins, líder do BE, qualificou como "inexplicável" o silêncio do primeiro-ministro, considerando também que João Galamba "tem muito poucas condições para continuar no Governo". Já o líder do PCP, Paulo Raimundo, afirmou que alguém está a mentir neste caso e que Costa está à espera de maio para falar - mas "quando maio chegar alguém vai ter que se explicar". Ainda antes da conferência de imprensa de Galamba, também o PSD, pela voz do líder parlamentar, Joaquim Miranda Sarmento, exigiu "esclarecimentos urgentes" ao primeiro-ministro sobre os "escândalos muito graves" a envolver o Executivo.

Com mais este caso a assombrar o Governo, no PS já se admite que o caminho pode passar por uma remodelação do Executivo. O aviso vem do topo. "Acho que é importante que o primeiro-ministro se mantenha com grande atenção para a necessidade de ver, ministro a ministro, se há ou não necessidade de algum refrescamento", afirmou ontem Carlos César, presidente do partido, em entrevista ao programa Interesse Público, do jornal Público.

Um aviso vindo da cúpula do partido, de dentro do núcleo duro de António Costa, e que César reforçou: "O primeiro-ministro deve estar atento a todos os sinais que possam modificar este ambiente que, circunstancialmente, não é muito positivo para o PS".

susete.francisco@dn.pt

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