Optimistas e coerentes… irritantes?

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Quando há poucos anos as agências de rating baixaram, quase em sintonia, a notação de risco de Portugal, os partidos mais à esquerda no espectro político português foram unânimes em desvalorizar o trabalho destas empresas. Agora, que assistimos a uma melhoria da avaliação do risco de crédito, coerentemente, os partidos que suportam a geringonça desvalorizaram a decisão.

Seria tão fácil descartar o trabalho das agências de rating, não fora vivermos numa economia global. Se pensarmos que existem investidores na Ásia, no Médio Oriente ou nos EUA que se guiam pela avaliação que a Standard & Poor’s, Fitch e Moody’s fazem dos países - e das empresas -, pela simples razão de que lhes é impossível conhecer em profundidade as contas dos avaliados, talvez percecionemos melhor o alcance do tão criticado trabalho destas agências.

Os modelos a que recorrem estão longe de ser pacíficos e transparentes. É bem possível que exista uma forte ponderação não analítica, quem sabe mesmo de carácter político, na classificação dos países em escalas de risco que vão dos mais “seguros” para investir, os AAA, aos mais arriscados, classificados com C ou D.

Em todo o caso, os modelos matemático-económicos destas agências de rating apresentam-se como uma caixa negra. Para alguns céticos, este modelo oferece grandes dúvidas de fiabilidade; para outros, continua a ser a única ferramenta de suporte quando se trata de investir, ou seja, de emprestar dinheiro a países ou empresas. A coerência, ou a falta dela, pode também manifestar-se na forma como os agentes políticos reagem aos indicadores económicos.

O Conselho de Finanças Públicas tem sido extremamente pessimista relativamente ao desempenho da economia portuguesa, avançando com projeções dramáticas para o crescimento do PIB e contas públicas. O atual primeiro-ministro nunca lhes conferiu importância. Esta semana, o mesmo Conselho anunciou previsões mais otimistas do que as do próprio governo, ao subir a sua estimativa de incremento do PIB de 1,7% para 2,7%.

A reacção de António Costa a este relatório, onde são deixados outros avisos relativamente ao défice estrutural, não podia ser mais coerente - “são conselhos de mera banalidade e de bom senso”. Não é, portanto, assim tão difícil ser otimista, irritante e… coerente, em simultâneo.

Miguel Gomes Silva, Head of Trading do Montepio

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