Se Dilma tivesse antecedido Lula ou se Lula tivesse chegado antes
de Fernando Henrique Cardoso, o Brasil continuaria a ser apenas o
país do futuro, como sempre foi, e não o país do presente, como
finalmente é. A ordem das coisas é tão importante como as coisas
em si
Para progredir, o mundo precisa de ordem - no sentido de
sequência, não de autoridade.
É assim desde o Génesis: Deus só criou o sol e a lua depois de
criar o céu, não fazia sentido noutra ordem, assim como não faria
sentido descansar antes do sétimo dia, ou seja, antes de ter tudo
arranjado.
Se um irresponsável como Dom Sebastião tivesse reinado uns 100
anos antes provavelmente não teria havido Descobrimentos - se
governasse hoje em dia talvez a sua irresponsabilidade passasse
despercebida entre tantas outras.
Se Woody Allen tivesse vivido os anos 20 do século passado em
Paris provavelmente seria personagem e não autor do seu último
filme.
Mas há exemplos contrários. Se o desconfiado Churchill tivesse
sido eleito primeiro-ministro inglês antes do crédulo Chamberlain
provavelmente não teria havido segunda guerra mundial e milhões de
mortos a lamentar. Chamberlain chegar ao number ten antes de
Churchill foi uma desordem do universo. Resultado: caos, destruição,
tragédia.
Tudo isto para chegar ao Brasil. O Brasil não teve apenas três
excelentes presidentes desde 1995. Teve-os na ordem exata - e isso é
que fez a diferença. Qualquer desvio sequencial manteria o país com
o eterno estatuto de nação do futuro e não do presente.
Se Dilma Rousseff tivesse aparecido antes de Lula não passaria de
uma tecnocrata vulgar, se Lula tivesse sido eleito antes de Fernando
Henrique Cardoso teria sido um obstáculo fatal à entrada de capital
estrangeiro, se FHC tivesse sucedido a Dilma ou a Lula seria um passo
atrás na redução efetiva da desigualdade.
Mas como no Génesis o céu antecede o sol e a lua, no Brasil
Dilma veio depois de Cardoso e de Lula.
Ao bater Lula nas eleições de 95, o intelectual FHC, ministro da
Fazenda de Itamar Franco, deu continuidade ao seu Plano Real,
facilitou a entrada das grandes multinacionais no país, iniciou uma
política de privatização sem precedentes desde Collor e lançou
bases, ainda que tímidas, para programas sociais, como o Bolsa
Escola.
O Plano Real e as reformas económicas jamais poderiam ter
sido obra de Lula - seriam vistos como uma traição do sindicalista
ao seu passado. No entanto, numa adaptação pragmática à economia
de mercado, o presidente fez o país crescer "como nunca antes na
história do pais", o seu bordão preferido, criando em paralelo o
"Minha Casa, Minha Vida", o "Bolsa Família" ou o "Fome
Zero", programas super-assistencialistas que o social-democrata FHC
dificilmente assinaria.
A má notícia é que para governar um país com um sistema
político parecido com o dos EUA mas quase 30 partidos em vez de
dois, o metalúrgico precisou de um sistema de alianças,
subalianças e subsubalianças que resultou, entre outros, no
escândalo do mensalão. Agradando a cada um dos quase dez partidos da
base aliada do governo, Lula fez o que devia e, mais vezes ainda, o
que não devia.
Eis que chega Dilma. Chega sem a voz rouca ou o sorriso terno do
padrinho Luiz Inácio nem a pose impecável ou o crédito intelectual
de FHC mas chega com uma vassoura na mão. Cabe-lhe seguir o rumo de
crescimento iniciado por Cardoso e honrar Lula na erradicação da
pobreza. Mas também varrer a sujidade político-partidária deixada
pelo carismático antecessor. A varredela que Lula não tinha moral
para dar.
Dilma é a mulher certa, no lugar certo, na hora certa, na
ordem certa. E o Brasil avança. Com Ordem e Progresso.
Jornalista
Escreve à quarta-feira