Orquestra Sem Fronteiras: O projeto de Martim Sousa Tavares que usa a música clássica para corrigir assimetrias

Com recurso a mecenas e organismos locais, fixou-se no interior do país, aboliu a fronteira com Espanha e dá visibilidade a talentosos jovens músicos que, de outro modo, ficariam por descobrir ou sem saída.
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Existe desde março de 2019, foi fundada em Idanha-a-Nova, no interior raiano de Portugal, já com os olhos postos em Espanha, e a ideia partiu do maestro Martim Sousa Tavares com o intuito de reduzir assimetrias geográficas, culturais e, até, sociais. Usando a música clássica como ferramenta, a Orquestra Sem Fronteiras (OST) combate o abandono do ensino musical, promove a participação cultural em territórios de baixa densidade populacional, bem como a cooperação e integração transfronteiriça, e tudo isto com o simples agitar da batuta do seu diretor.

"A Orquestra Sem Fronteiras é um projeto que pretende abolir as fronteiras que ainda existem na música clássica", diz Martim Sousa Tavares ao Dinheiro Vivo. "Essas fronteiras são não apenas geográficas - e, de facto, trabalhamos com músicos espanhóis e em território espanhol -, mas também fronteiras no acesso à fruição da música clássica."

É por isso, conta o jovem diretor de orquestra, que o grosso da programação da OST se mantém, sobretudo, no interior do país e apoiando também os jovens que aí estudam ou vivem. "Formamos com eles uma orquestra de âmbito profissional, em que eles são pagos e têm connosco muitas vezes as primeiras e até únicas oportunidades de ganhar algum dinheiro com o seu trabalho. Portanto, a ideia é incentivá-los a apostarem nesta profissão."

De facto, são enormes as dificuldades para se prosseguir uma carreira na música clássica nestes meios isolados. Conta o maestro Sousa Tavares que a ideia da OST lhe ocorreu precisamente devido ao seu "conhecimento da realidade do nosso país e da distribuição das oportunidades e das assimetrias que ainda se verificam em relação às grandes cidades e aos territórios do interior."

Por isso, a OST aceita fazer audições a todos os jovens alunos menores de conservatórios e escolas profissionais propostos pelos respetivos professores, aos estudantes do Ensino Superior de música que se proponham e aos jovens músicos naturais e/ou residentes no interior cujos estudos tenham sido concluídos ou interrompidos que se queiram propor também.

O resultado em uma composição de orquestra em constante rotatividade e dimensão variável. "A composição da nossa orquestra é variável, na medida em que nós colaboramos com escolas, conservatórios, academias, universidades e, portanto, constituímos um efetivo orquestral de acordo com as necessidades que temos para cada concerto. Posso dizer que o mais pequeno que organizamos são quartetos - coisas bem pequeninas para levar a lugares remotos ou realidades onde não é possível, por razões às vezes orçamentais, ter mais músicos - e o máximo chega aos 50 em concertos sinfónicos. Eu diria que entre o quarteto e o concerto sinfónico já fizemos literalmente todas as combinações possíveis."

Formado em direção de orquestra em Chicago, nos EUA, o maestro Sousa Tavares já por diversas vezes se assumiu como pouco convencional, querendo fazer o que os outros não fazem - afinal, convencionais é o que mais há -, trazer a música clássica para mundo real, atravessar géneros e viajar entre estilos. Por isso, nos vários programas que vai criando incluem-se, por exemplo, as maratonas com a orquestra de bolso, uma versão mais reduzida da OST, que percorre dez aldeias em dois fins de semana. Em entrevista, Martim Sousa Tavares já chegou a contar que a iniciativa é tão bem recebida que por vezes se equipara à história do Flautista de Hamelin, porque as populações vão seguindo a OST de aldeia em aldeia, que por norma são todas muito perto umas das outras, e no final já há sempre sessões hiperlotadas.

E ainda que o diretos da OST tente manter os seus projetos maioritariamente por terras transfronteiriços - vão muitas vezes a terras de nuestros hermanos - admite, sem pejos que a sua oferta "é de excelência e, portanto, acaba por ser cobiçada por festivais ou teatros de localidades que não são no interior. E, no nosso entender, faz sentido à mesma aceitá-los, porque são oportunidades que damos aos nossos músicos." Assim, na OST, os jovens músicos do interior que compõem têm não apenas uma primeira oportunidade profissional paga, como uma montra para mostrarem o seu talento e muitas vezes, diz o maestro, são chamados para audições noutras orquestras e lançam as suas carreiras a partir daqui.

Todo este trabalho, desenvolvido nos últimos quatro anos, sempre foi feito com apoio do mecenato e das organizações locais. "Nós nunca dependemos do Estado para desenvolver a nossa atividade - até hoje somos independentes nesse sentido - e a relação que construímos é com os parceiros, com aqueles que nos apoiam", contou Martim Sousa Tavares e concretiza com exemplos: "A Fundação Santander está entre os primeiros, foram o nosso primeiro apoio e estão connosco desde o primeiro dia, mas também os municípios, os festivais, as entidades que nos contratam e, portanto, muitas vezes nós desenvolvemos programação específica para ir ao encontro dos interesses ou de uma realidade local ou regional ou social."

Originalmente publicado no dia 15/07

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