Os jornais estão a morrer mas a culpa não é da internet. Os despedimentos aumentam, os novos títulos não vão além dos primeiros anos de vida e os títulos mais antigos lutam desesperadamente para sobreviver. Numa época em que a procura por informação é cada vez maior, porque agoniza a imprensa?
Comecei a trabalhar num jornal que era uma espécie de cooperativa. Um grupo dos maiores nomes do jornalismo juntou economias e fundou vários títulos de sucesso. Nos anos 80, os semanários O Jornal, Sete e JL começaram com uma gestão quase caseira, muitas vezes feita também pelos próprios jornalistas. Claro que a linha editorial estava sempre à frente do business plan. Essa era então a verdadeira razão do sucesso de vendas e da credibilidade. A competitividade e a evolução económica acabaram por obrigar a uma gestão mais profissionalizada. Com o passar dos anos, este acabou também por ser inevitavelmente o modelo seguido por todos os jornais.
Hoje, um dos principais erros de gestão dos media em geral é querer geri-los apenas como se fossem empresas normais. Muitos investidores esquecem ou ignoram que este não é de facto um negócio como outro qualquer. É impossível fazer jornais de sucesso sem ter em conta que o que se está a vender aos leitores são conteúdos. Um produto único, difícil de produzir e que tem como principais ingredientes a liberdade, a criatividade e o tempo. É impossível fazer jornais como se fossem chouriços, mas infelizmente é isso que alguns ainda tentam fazer! No jornalismo, as linhas de produção e as folhas excel não se aplicam.
É obvio que, como todas as outras empresas, também as deste sector têm de evoluir e adaptar-se, com os custos e as dores das regras de mercado. É isso que está a acontecer com os inevitáveis cortes e ajustamentos, mas acreditem que este é ainda um negócio rentável. Se for bem feito e com respeito pelos princípios básicos da liberdade de imprensa, pode dar muito dinheiro. A imprensa digital e as redes socias, ao contrário do que muitos vaticinaram, não são uma sentença de morte para o papel. Quando bem conjugadas, todas as plataformas se complementam e podem até adicionar leitores e arrastar publicidade. Os exemplos internacionais, e as newsletters que se multiplicam diariamente em Portugal, são cada vez mais a prova deste novo caminho.
Apesar das últimas e infelizes notícias sobre despedimentos em vários jornais portugueses, espero que os empresários não desistam de investir na imprensa. Este não é um negócio à beira da morte, embora possa parecer. Caso contrário, porque estão alguns dos maiores milionários do mundo tão interessados no sector? Jeff Bezos, John Henry e Warren Buffett não são loucos e geralmente nunca perdem dinheiro. Os três optaram recentemente por investir centenas de milhões de dólares precisamente na compra de jornais. Seguramente, não foi por acaso.