Os melhores anos de crescimento de sempre

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Os académicos têm uma dupla obrigação quanto ao tempo: devem estar a par do que acontece, sem se perderem no quotidiano, e terem memória para refletir serenamente sobre o passado, para poderem identificar tendências e linhas de fundo. No primeiro semestre de 2023, repetiram-se referências, nos meios de comunicação social, a termos alcançado os melhores anos de sempre em matéria de resultados, contrariando claramente as previsões feitas, então, a propósito dos resultados futuros. Notícias que se mantêm a par de tantas outras que relatam dificuldades estruturais ou circunstanciais, na macroeconomia e na microeconomia.

Em 2022, registaram-se os novos melhores anos em vários setores de atividade, à semelhança de 2021, contrariando claramente prognósticos anteriores. Por exemplo, a AIMMAP - Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal fechou o último ano a exportar 22 mil milhões de euros, mais 10% do que em 2021. No primeiro trimestre de 2023, já registou o melhor resultado de sempre - 2,52 mil milhões de euros), um crescimento de quase 20% sobre 2022, contrariamente às afirmações defensivas do início do ano.

No muito tradicional setor têxtil e da moda, as exportações fixaram-se em 6,1 mil milhões de euros, em 2022, mais 13,1% do que em 2021. No primeiro trimestre de 2023, voltou a crescer 2% em valor, segundo informação recente da ATP - Associação Têxtil e Vestuário de Portugal.

A Portugal Fresh também fechou 2022 a faturar 2 mil milhões de euros, acima dos 1,7 mil milhões de 2021, assim como o setor do calçado, com exportações no valor de 2,2 mil milhões de euros, um novo recorde.

A Portugal Foods é um ecossistema em ampliação e robustecimento, cujo sucesso está na estratégia de integração de entidades regionais e nacionais do setor agroalimentar português, com empresas científicas e tecnológicas, e com a Portugal Fresh, com os vinhos, azeites, pescado e frutos secos, juntamente com Federação das Indústrias Portuguesas Agroalimentares (FIPA). Sublinhe-se que, no primeiro trimestre, as exportações continuaram a crescer para 2,2 mil milhões de euros, mais 15,7%.

O Health Cluster Portugal (HCP) foi fundado em 2008, com uma governação e gestão profissional robusta. No ano passado, contava 226 associados responsáveis por exportações no valor de 2,4 mil milhões de euros, 35% acima do ano anterior. Focadas em mercados exigentes, como os EUA e a Europa, e fortemente alicerçadas nas preparações farmacêuticas, estes dados reforçaram o peso da saúde na economia nacional.

Há duas razões principais que se estão a ampliar com o passar dos tempos para este sucesso repetido: o efeito de escala das principais empresas que integram estes ecossistemas e a melhoria da qualidade da gestão de cada vez mais empresas nacionais, como se manifesta nestes exemplos de empresas que nasceram com perspetiva global, desde o início, implantando-se no estrangeiro para além da simples exportação.

A Autoeuropa está no seu 31.º ano de funcionamento e a produzir à capacidade máxima, 890 carros por dia, com 19 turnos semanais de 5200 trabalhadores. Em 2022, produziu 231 100 carros, o maior número de sempre. A esta produção há que acrescentar a dos seus fornecedores e das empresas que fazem parte do seu ecossistema industrial, englobados na AFIA - Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel, registando-se 10 mil milhões de euros de exportações de componentes para automóveis, ou seja, mais um recorde.

Outro dado importante do último ano é o facto de nas cinco fábricas portuguesas (Autoeuropa, Stellantis, Mangualde; Fuso; Toyota Caetano e Caetano Bus) se produziram 322 404 veículos. Contas feitas, trata-se de um crescimento de 11,2% face a 2021, sendo o segundo melhor ano de sempre.

A Corticeira Amorim, pelo seu lado, é o maior grupo de transformação de cortiça do mundo e ultrapassou os mil milhões de faturação, pela primeira vez na sua história, exportando para mais de 100 mercados, através de 63 empresas, em que o seu core business, rolhas para as garrafas dos vinhos mais destacados, representa cerca de 73% da faturação.

Já a empresa Sogrape, no seu 80º aniversário assinalado em 2022, faturou 347 milhões de euros, em que o Mateus, como joia da coroa, representa ainda 12%, que se comparam com uma faturação de 192 milhões, em 2018, em que o Mateus representava 18%. A diferença traduz um importante crescimento orgânico e, sobretudo, a aquisição, em junho de 2020, de uma participação de controlo na empresa Liberty Wines, um dos mais representativos distribuidores de bebidas, sedeado no Reino Unido.

A Tecnimede é uma empresa farmacêutica de produtos genéricos, integrada no Health Cluster, que teve uma faturação de 215 milhões de euros e exportações correspondentes a 44% do total. Nasceu em 1980, já a pensar no mercado global, sendo a segunda maior do mercado ambulatório nacional e tendo já patenteado tecnologia de fabrico.

O Grupo Vigent, com origem na metalomecânica especializada, tem, hoje, duas valências relevantes. Na área original, vendeu cerca de 395 milhões de euros, em 2022 (multiplicando por três as vendas de 2019), e entrou na área da distribuição alimentar, especialmente pescado e congelados, faturando 272 milhões de euros em 2022. Este ano, espera vender 343 milhões de euros.

A estes ecossistemas temos de acrescentar o conjunto de unicórnios e grande empresas da área da informática. Feedzai, Outsystems ou Critical.

Regressando à macroeconomia, o ISEG - Instituto Superior de Economia e Gestão, em conjunto com a CIP - Confederação Empresarial de Portugal, no Barómetro de Conjuntura Económica de junho, reforçam a estimativa de crescimento de 2,5%, em contraste com o Fórum da Competitividade, que previa, em abril, um forte abrandamento do crescimento, de 6,7% em 2022 para entre 1 ¼% a 1 ¾% em 2023, e entre 1% e 2% em 2024. Nesta última quinta-feira do semestre, veremos o que nos diz a série de dados económicos que o INE vai publicar e que permitirá fazer pender as expectativas - para um lado ou para o outro.

Em julho, com os dados económicos do final do semestre, poder-se-á conhecer qual é a opção que a realidade vai "escolher" entre as duas perspetivas.

Presidente da AESE Business School

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