As camisas de futebol no auto-denominado país do futebol - por ser o único pentacampeão mundial - e com mais clubes grandes do mundo - são pelo menos 12 emblemas com torcidas superiores a três milhões de adeptos e mais uma mão cheia lá perto - ainda vão vendendo.
E ainda vão vendendo apesar dos impostos em cascata engordarem o preço em torno de 60%; das grandes marcas, como a Nike, a Adidas ou a Puma, estabelecerem preços mínimos a que o lojista tem de obedecer; e da competitividade neste ramo não funcionar, isto é, se o Corinthians coloca a sua a 200 reais, o Palmeiras não pode vendê-las a 150 para não se dizer que está desvalorizado em relação ao rival.
Mas se no Brasil o futebol ainda é mais ou menos o que era, é a política que está muito maior do que foi. Logo, o que está dar, como entenderam meia dúzia de empreendedores do setor do vestuário, são as t-shirts, e outras variantes de vestuário, políticas.
Não as camisas do PT, do MDB ou do PSDB porque os partidos valem o que valem – em recente sondagem Datafolha, 62% dos brasileiros disseram não ter preferência partidária, 20% declararam-se simpatizantes do PT e quatro e três por cento de MDB e PSDB, respetivamente - mas produtos originais, usando da lendária vocação brasileira para o slogan, para a frase de efeito, para o golpe publicitário.
O mercado das lojas online com máximas estampadas na roupa conotadas com a direita ou com a esquerda, num país à beira de eleições, politicamente a ferver, onde toda a gente tem lado e em que encontrar um moderado é mais inglório do que procurar agulha em palheiro cresce pois a pique.
A Direita Store e a Camisetas Opressoras, por exemplo, vendem aos milhares camisas a dizer “Bolsonaro Honra/Moral/Ética”, aludindo ao candidato presidencial de extrema direita.
Há outras com “É só você não matar/estuprar/sequestrar que não vai preso, p...!”, em resposta aos defensores dos direitos humanos. No mesmo tom, está à venda uma camisa em que se lê “pelo fim da cultura do mimimi”, sendo que “mimimi” é um calão que significa “reclamação” ou “queixinhas”. Outra afirma “Machista, fascista e opressor? Só não me chamam de corrupto”.
“Olavo tem razão”, em referência a Olavo de Carvalho, o filósofo conservador que inspira Bolsonaro e certa direita brasileira, ou “Ustra vive”, em homenagem a Brilhante Ustra, chefe do órgão de repressão DOI-CODI durante a ditadura militar que terá, entre muitos outros presos políticos, torturado Dilma, são outros exemplos.
As lojas Eu Não Me Calo e Camisa Crítica, por sua vez, entre produtos aludindo a Che Guevara, à Revolução Cubana e à ex-União Soviética, usam expressões de esquerda nas roupas como “A Saída É pela Esquerda”, “Não Há Lugar Para Homofobia, Fascismo, Sexismo, Racismo e Ódio”, “Manas em Luta”, pelo feminismo, “Ocupar, Resistir e Não Se Calar”, em defesa do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, e “Lula só roubou o meu coração”.
Com este mercado em ebulição, só os moderados não têm o que vestir.