Os (novos) golpistas do amor

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O amor não tem preço, mas quanto dinheiro estamos dispostos a gastar depois de o vislumbrar? Para muita gente, todo o que têm no banco e depois ainda mais algum.

Histórias de vigaristas que seduzem, enganam e desaparecem com todo o dinheiro de vítimas apaixonadas são antigas, mas nunca foi tão fácil encontrar alvos como agora, na era das aplicações de encontros.

É esse o tema do novo documentário da Netflix, "The Tinder Swindler", que mostra como três mulheres ficaram na penúria e cheias de dívidas por caírem no engodo de um tal de Simon Leviev, pseudónimo de Shimon Hayut, que as enredou numa espécie de esquema ponzi amoroso. Ele usava o dinheiro de uma para dar a aparência de ser milionário junto de outra, que mais tarde convencia a emprestar-lhe dinheiro para pagar os luxos da vítima seguinte. Quem duvidaria da capacidade de um milionário de saldar uma dívida temporária?

Usando a aplicação de encontros Tinder, Shimon deixou um lastro de vítimas por todo o mundo, estimando-se que tenha defraudado mulheres em 10 milhões de dólares. Nunca foi acusado pelo que lhes fez, e o tempo que passou na cadeia - cinco meses - não parece ter beliscado o seu pendor para a fábula nem o seu estilo de vida luxuoso.

A exposição mediática a que foi sujeito trouxe-lhe algumas consequências - perdeu a conta no Instagram e foi banido do Tinder. Parece positivo: na era das aplicações é mais fácil encontrar vítimas mas também é mais fácil expor fraudes. Digamos que não é, no entanto, um custo muito elevado para o que ele fez. Num mundo em overdose de informação, com inúmeras redes, vídeos virais e um tempo de atenção cada vez mais curto, a tempestade passa depressa. A seguir virão outros, e mais outros, e mais outros.

Este momento é particularmente fértil em engodos amorosos porque estamos a entrar no terceiro ano de pandemia e há muita solidão, algum desespero, um desejo enorme de contacto humano e de conexões com significado. Isso ajuda a explicar um outro fenómeno que está em ascensão no mundo da engenharia social amorosa. Esqueçam os príncipes nigerianos; agora, há que ter atenção aos "dates" que prometem ensinar tudo sobre investimentos em criptomoedas e se oferecem para ajudar a fazê-lo.

Segundo o regulador norte-americano Federal Trade Commission, só em 2021 foram denunciadas 56 mil fraudes amorosas que geraram perdas de 139 milhões de dólares - o dobro do que tinha acontecido no ano anterior. O FBI avisou, há uns meses, que os esquemas ligados a criptomoedas estão a crescer exponencialmente - aos milhares.

Isto está relacionado não apenas com o mediatismo das moedas digitais e as histórias de criptomilionários, que criam curiosidade e fascínio nos consumidores, mas também com a sua natureza. Há uma transparência inerente às transacções mas não à posse das carteiras digitais, cujos donos podem manter-se anónimos. Além disso, a descentralização que atrai tanta gente significa que não há um banco ou entidade central junto de quem reclamar para tentar recuperar dinheiro roubado.

Estas características e a valorização explosiva das criptomoedas são atractivos sumarentos para os novos golpistas do amor, que constroem esquemas particularmente complexos e que podem demoram meses a executar - como, de resto, requerem as fraudes em que alguém é levado a confiar cegamente no vigarista. Uma investigação do New York Times descreve-os em detalhe, fornecendo o testemunho na primeira pessoa de vítimas recentes.

Uma delas foi Tho Vu, que conheceu um homem na aplicação de encontros Hinge e, após algum tempo a ser cortejada, acedeu com entusiasmo a investir as suas poupanças em Bitcoin. Os lucros iam ajudar a pagar o casamento, disse o "namorado", e o investimento era feito através da plataforma de trocas OSL, que é legítima.

Mas os 300 mil dólares que Vu foi progressivamente investindo não foram parar à conta legítima que ela pensava que tinha; foram para a carteira digital do vigarista, que desapareceu sem deixar rasto.

O mesmo aconteceu com Niki Hutchinson, que pensou estar a viver um romance com alguém que também conheceu no Hinge. Na fase inicial, a jovem enviou apenas um pequeno montante, com uma conta que estaria ligada à plataforma ICAC.

O site, legítimo, realmente mostrou o investimento e reflectia ganhos exponenciais à medida que Hutchinson ia investindo mais. Quando já tinha investido mais de 200 mil dólares, pediu um empréstimo para continuar a investir. E foi só quando tentou levantar algum dinheiro da sua conta que percebeu que algo estava errado. O "namorado" desapareceu e deixou-a na penúria, a viver numa autocaravana com o pai.

A lição, se alguma há a retirar destes casos trágicos, é que misturar amor e dinheiro raramente dá bom resultado. E se alguém parece bom demais para ser verdade, o mais provável é que não seja.

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