Os progressistas regrediram

Publicado a

Quem tem razão na condução da agenda social? Os progressistas ou os conservadores?

Os progressistas – chamemos-lhes assim em vez de ‘liberais’ para não haver confusões com correntes económicas – têm a certeza de que são eles.

Afinal, quando já nas primeiras décadas do século passado falavam em divórcio, os conservadores arrepiavam-se. Hoje, o direito ao divórcio é indiscutível nas democracias ocidentais.

Depois, trouxeram a debate o planeamento familiar - foram acusados de heresia pelos opositores dos métodos contracetivos conhecidos. Hoje, quando os progressistas falam em flexibilizar o direito ao aborto, são os conservadores que agitam a bandeira do planeamento familiar, que antes rejeitavam, como contraponto à interrupção da gravidez.

Ou seja, a prazo os progressistas têm, de facto, razão. Mas será que ter razão antes do tempo é, sempre, sinal de lucidez? Ou pode, por vezes, ser sinal de precipitação?

No fundo, é do equilíbrio entre os progressistas, que têm razão antes do tempo, e os conservadores, que a prazo deixarão de a ter, que se fazem avanços na agenda dos costumes sem ruturas dolorosas capazes de derivarem em problemas insanáveis.

O que é que isto tem a ver com o Brasil? Mais do que a Europa, o Brasil, como os Estados Unidos, é uma terra de contrastes. Nos mesmos Estados Unidos das maiores comunidades mormon, amish ou quaker do mundo está a capital da indústria pornográfica à escala global. No Brasil, onde se realiza a maior parada gay do universo, o lobby mais poderoso do Congresso é a Bancada da Bíblia, que defende a cura da homossexualidade e a descriminalização da homofobia.

Nos últimos anos, causas defendidas pelos progressistas, como os direitos das mulheres e dos negros (que até são maiorias), avançaram. E a agenda LGBT também. Ninguém contesta a justiça das suas exigências, nem, nalguns casos, a urgência de as ver resolvidas. Mas a questão, voltando ao princípio, é se o avanço não foi rápido demais, logo, precipitado.

Acresce que esses movimentos foram realizados durante governos de esquerda, que não só os permitiram, como até incentivaram. E que a Rede Globo, ainda um poder paralelo no país, apesar de justamente conotada com o conservadorismo na política, no plano dos costumes abraça as causas progressistas, cada vez mais atendidas no núcleo de ficção (novelas e não só) do canal.

Quando, em 2015 (coincidindo com o início do processo de derrocada de Dilma Rousseff, do PT e da esquerda), a novela em que duas atrizes da Globo se beijavam na boca perdeu a liderança para a concorrente bíblica da Record, canal da IURD, estava dado o mote para o que aí vinha no campo político.

Por estarem a lutar contra o todo poderoso Planalto, por um lado, e a emissora dominante, por outro, os conservadores sentiram-se acuados. Acuados, revoltaram-se. Revoltados, organizaram-se. Organizados - ao contrário do campo progressista, que reunia um cocktail esquisito de forças que ia da extrema-esquerda à Globo, passando pelo PT e pelo seu rival histórico PSDB - elegeram o candidato que falava a sua voz.

Receberam o aval do mercado, colaram o rótulo da corrupção nos rivais, prometeram soluções simplórias para problemas complexos, seguiram o exemplo que mais os inspira, os EUA acabadinhos de eleger Trump, e o resto da história conta-se nas urnas.

Para os progressistas brasileiros, que um dia terão inevitavelmente razão, fica a lição: os progressos fazem-se devagar e com tolerância – afinal, um dos seus mantras – pelos que (ainda) pensam diferente. Se não, a relação com a sociedade termina, como terminou, em divórcio.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt