As cidades portuguesas estão a ser invadidas por lojas de ouro e
a Oro Cash quer garantir uma parte importante desta conquista. O
grupo italiano não acredita que este seja um negócio de crise. Com
500 lojas na Europa, a filial portuguesa (Ouro Caixa) planeia abrir
75 lojas por todo o País nos próximos três anos. Carlos Duarte,
CEO da empresa para Portugal, queixa-se de um vazio legislativo que
permite que cafés e lojas de roupa entrem no negócio.
Portugal exporta 132 vezes mais ouro do
que antes da crise. Leia tudo aquiO negócio de compra e venda de ouro tem a reputação de ser
obscuro. Pode explicar como funciona?
O circuito é simples e existe desde 1999, ano em que criámos a
empresa, em Itália. Compramos ouro e vendemos a fundições que o
derretem e transformam em barras, que são depois vendidas a bancos,
por exemplo. Hoje, temos uma fundição própria na Suíça, perto da
fronteira com Itália. É para lá que vai tudo o que vendemos para
fora. Recebemos consoante a cotação do ouro nesse dia.
Quanto tempo demora entre comprar o ouro e vendê-lo?
Mais de um mês. Do momento em que sai de Portugal até ser
vendido na Suíça, pode demorar 15 dias. Mas antes disso somos
obrigados a guardá-lo durante 21 dias, dando à Polícia Judiciária
um inventário semanal com o que foi comprado. Em Itália, por
exemplo, são só dez dias.
As margens de lucro são boas?
Sim, mas há riscos. Como temos de esperar muito tempo podemos
acabar por vender o ouro a um preço mais baixo do que esperávamos.
Em que ano o negócio explodiu em Portugal?
Quando começaram a aparecer mais lojas. O crescimento do negócio
foi generalizado por toda a Europa, mas mais acentuado aqui. Calculo
que haja entre 500 a 600 lojas de compra e venda de ouro atualmente
em Portugal. É muito para um país tão pequeno. Nós somos líderes
de mercado em Itália e só temos 300 lojas.
É fácil abrir uma loja de ouro?
É muito simples. Só tem de criar uma empresa cuja atividade é
compra e venda de objetos preciosos, alugar um espaço e ir à casa
da moeda pagar 70 euros.
A legislação portuguesa não acompanhou o crescimento do
negócio?
Acho que esta facilidade é preocupante. Ao lado da nossa loja na
Maia, há uma loja de roupa para criança que tem um sinal na montra
a dizer "compramos ouro". Eu conheço um café que também
compra ouro...
Falta segurança?
Em Espanha ou Itália, a legislação é muito mais apertado. É
preciso instalar vidros à prova de bala, ter um cofre especial, etc.
Obrigações que não cumprimos em Portugal. A maior parte das outras
lojas são uma sala com uma mesa do Ikea, uma senhora e uma balança.
Temos lojas de roupa de criança a comprar ouro.
Quantas pessoas empregam em Portugal? E quanto faturam?
Neste momento temos dez lojas e empregamos 15 pessoas. Em 2011,
faturámos 807 mil euros. Ainda este ano devemos abrir entre seis a
oito lojas, em cidades como Setúbal, Guimarães e Braga. O nosso
objetivo é abrir 75 lojas em três anos.
Que tipo de objetos as pessoas vos vendem?
Acaba por ser o mais básico: fios, pulseiras, anéis. Às vezes
também pins de clubes, quando perdem.
Parte do crescimento deste negócio está relacionado com a crise
e a necessidade de liquidez das famílias?
Essa ideia generalizou-se, mas não concordamos com ela. A nossa
loja que mais vende continua a ser a primeira, em Monza. Abrimos em
1999, numa altura em que não se falava de crise. Não nos podemos
esquecer que nós compramos e vendemos. A crise também faz com que
nos comprem menos ouro.
Tem ideia de que percentagem das vendas são por necessidade?
Não temos nenhuma estatística, mas diria que 25% a 30% do ouro
que nos vendem é por necessidade. No Norte muitas pessoas mais
velhas vendem com medo de serem assaltadas.
Não temem que este crescimento forte seja passageiro?
É natural que percamos as pessoas que vendem por necessidade, mas
vamos ganhar aquelas que agora não conseguem comprar por não terem
dinheiro. Somos latinos e Portugal tem uma cultura de ouro. As
criancinhas vão continuar a receber pulseiras de ouro.
Mesmo que compensem o desaparecimento do "efeito crise",
as exportações deverão ressentir-se.
Haverá um abrandamento das exportações de ouro. Atualmente
exportamos 80% do que compramos. Quando o consumo recuperar, vamos
vender mais em Portugal e exportar menos.