O fio do novelo da Operação Lava-Jato, que investiga os roubos na Petrobrás, chegou aos estádios em forma de Operação Fair Play. E concluiu que a Odebrecht, a principal construtora do país, cujo presidente está num calabouço por envolvimento no Petrolão, fraudou a licitação da Arena Pernambuco e ainda a sobrefaturou em 70 milhões de reais (cerca de 20 milhões de euros).
Os agentes vão agora passar a pente fino todos os contratos de construção ou remodelação dos outros estádios a cargo da Odebrecht - o Itaquerão, em São Paulo, o Maracanã, no Rio de Janeiro, e o Fonte Nova, em Salvador.
Dos 12 estádios construídos ou remodelados só um tem uma taxa de ocupação superior a 50 por cento e parte deles são o protótipo do elefante branco (nada que não estivesse previsto neste texto de Junho de 2012: https://www.dinheirovivo.pt/emprego/opiniao/interior.aspx?content_id=3885822&page=-1).
A Arena Pantanal, em Cuiabá, é a de menor taxa de ocupação (16 por cento). Para começar, chegou a fechar por problemas elétricos, infiltrações e risco de desabamento do forro do teto por causa da humidade. Além disso, uma égua da polícia morreu eletrocutada no local e a seleção olímpica brasileira não conseguiu tomar banho nos balneários por falta de água.
O Estádio Mané Garrincha, em Brasília, além de ter sido o mais caro de todos, só recebeu 10 jogos depois do Mundial - e treinadores, jogadores e público queixaram-se do péssimo relvado, da falta de água quente e das casas de banho e elevadores avariados. Mas calma: é agora usado como ótimo depósito de autocarros, como palco esplêndido de festas de aniversário de filhos de milionários e como espaçoso centro de escritórios do governo.
No total, os custos - só de construção - dos 12 estádios foi de 8,4 mil milhões de reais (mais ou menos 2,4 mil milhões de euros). O tal Mané Garrincha, erguido nas barbas da sede do governo, foi o mais caro, enquanto a reforma do Maracanã foi a que mais disparou: 75 por cento acima do projetado. Parabéns ao Ceará que na sua capital, Fortaleza, construiu o único recinto mais barato do que o orçamentado.
Os cearenses, no entanto, têm outras razões de queixa, posteriores à Copa. Na simpática mas paupérrima Alto Santo, a 230 quilómetros de Fortaleza, após seis anos de obras foi construído com dinheiro da prefeitura e do governo federal o Coliseu do Sertão, uma réplica kitsch do Coliseu de Roma mas em forma de estádio de futebol. O custo total foi de 1,3 milhões de reais (quase 400 mil euros) e a obra foi concebida para receber 20 mil adeptos apesar da cidade ter apenas 16 mil e o clube da cidade jogar na terceira divisão regional do Ceará. Para a realidade da população local, um custo astronómico.
Mas pior é o que se passa em Varginha, Minas Gerais, onde não há campo de futebol megalómano mas há outras surpresas. Como há 19 anos três rapazes juraram ter visto um extraterrestre na cidade, as alienadas autoridades locais resolveram construir um disco voador gigante que inclui um museu de ovnilogia e um observatório das estrelas. Cinco anos e um milhão de reais (perto de 300 mil euros) depois, está parado. Os custos para os varginhenses e contribuintes brasileiros é, literalmente, astronómico.