Palpites

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No ano passado, a inflação foi superior ao aumento dos salários. Essa disparidade significa que quem vive dos salários, em média, perdeu poder de compra, conquanto as médias possam esconder dinâmicas diferentes (por exemplo, o baixo desemprego facilitou a mudança de emprego, em resposta a salários mais altos, dinâmica mais acentuada quando se trata de qualificações que escasseiam).

Quanto mais baixos são os salários, maior é a proporção do mesmo que é gasta em bens e serviços essenciais: alimentação, transportes, saúde, habitação. Pouco sobra, se sobrar. Foquemo-nos nos bens alimentares. Quase todos os dias vemos, e lemos, que o aumento de preços nessa categoria de produtos está muito acima da inflação média. Pior: esse aumento é mais significativo em alguns produtos básicos, desde o leite aos ovos, passando pela carne de porco e alguns vegetais. É natural, mas não é justo. É natural pois, em última instância, não nos podemos dar ao luxo de abdicar de comer. A procura desses bens é inelástica, ou seja, uma necessidade pouco sensível ao preço. Não é justo: dá uma maior margem de manobra a quem vende, tanto maior quanto menos concorrência houver; prejudica sobremaneira os mais pobres já sem margem para trocar, por exemplo, a carne de vaca pela de porco ou frango.

O que fazer para minorar este impacto? Tabelar preços é um delírio estatista impraticável. Já o caso espanhol mostra que a baixa do IVA é, depressa, capturada pelos vendedores. No imediato, o apoio direto às famílias mais carenciadas, em vales ou dinheiro, é bastante mais eficaz. Tem sido insuficiente. Em contrapartida, num estilo a que nos habituou, o governo prefere insinuar a responsabilidade das empresas, máxime a grande distribuição. Não pondo as mãos no fogo por elas, louvo a ponderação do inspetor-geral da ASAE: para além de multas em casos factuais, é preciso escrutinar toda a cadeia de formação de preços, para identificar potenciais focos de abuso de poder económico. A iniciativa será algo tardia. Porém, sem essa informação, a política é quase só palpites, mais ou menos mediáticos.

Alberto Castro, economista e professor universitário

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