Decorreu, entre segunda-feira e sexta-feira desta semana, a primeira edição do Accounting Summit, evento digital, promovido pela Primavera BSS, com o objetivo de trazer à discussão os grandes desafios da profissão de contabilista. A conferência contou com 75 minutos diários de emissão online, onde quatro especialistas - um orador principal e três em debate - discutiram aspetos estratégicos para esta atividade. Segundo Diana Silva, responsável pela organização, esta primeira edição superou as expectativas e reuniu mais de cinco mil participantes ao longo dos cinco dias.
"Foi transmitido para todos os PALOP, mas 70% dos participantes eram de Portugal, o que torna este evento num dos maiores do ano. Os participantes foram fiéis todos os dias, e assim o formato digital irá manter-se, muito provavelmente, em 2021", explica.
Transversal a todos os painéis foi a necessidade de valorizar a profissão, criando valor acrescentado para o cliente e, consequentemente, para os contabilistas. Uma coisa parece certa: a profissão não vai desaparecer, mas antes reinventar-se. A digitalização, por exemplo, é uma ameaça que gera oportunidades. Como disse o orador Daniel Bessa, economista, "os contabilistas podem apresentar serviços ainda mais qualificados", aproximando assim cada vez mais a contabilidade à gestão, fazendo uma contabilidade analítica, de custos e até orçamentação.
José Dionísio, co-CEO da Primavera BSS foi o primeiro orador do evento e começou por apresentar o mercado que estes profissionais têm à sua disposição: um universo total de 1,3 milhões de empresas. Porém, estes profissionais sobrevivem com rentabilidades baixas. Assim, José Dionísio explicou à audiência que o volume de receitas de um escritório de sucesso deverá situar-se entre os 50 e 60 mil euros por profissional, ao ano, e as suas avenças deverão estar na média dos 220 euros mensais. Só com uma margem operacional mínima de 20% é que um escritório consegue pagar todas as obrigações, informou. No final desta apresentação seguiu-se um debate onde foi possível conhecer a opinião de três especialistas: António Godinho, empresário e consultor, José Rodrigues, professor e vice-reitor do ISCTE, e Vítor Vicente, CEO da Contas e Resultados.
No segundo dia da Accounting Summit discutiu-se a conquista e retenção de clientes. Para Roberto Dias Duarte, consultor brasileiro, as empresas de contabilidade que não crescem estão a pôr em causa a sua própria sobrevivência. Isto porque vivem de capital intelectual, talentos que se querem desenvolver, e se a empresa não acompanha esta ambição, acabam por ir embora. Este é um mercado em crescimento, que gerou receitas de 574 mil milhões de dólares (cerca de 485 mil milhões de euros) em 2019 e há maior procura para serviços de contabilísticos consultivos, mas faltam profissionais qualificados.
Paula Panarra, diretora-geral da Microsoft em Portugal, foi a oradora principal do terceiro dia, dedicado à tecnologia. "Os últimos meses puseram-nos à prova e mostraram que foi possível fazer em dois meses uma transformação digital que provavelmente só aconteceria em dois anos. Isso aconteceu pela necessidade, que foi uma grande impulsionadora desta transformação", afirma Paula Panarra.
O debate contou com três especialistas do setor: David Afonso, vice-presidente da Primavera BSS, Marco Costa, CEO da UWU, e Rui Henriques, partner da EY. David Afonso entende que a digitalização e a inteligência artificial não vão roubar trabalho aos contabilistas mas antes lhes vão fornecer um mercado potencial, através das toneladas de dados que geram.
No quarto painel da Accounting Summit discutiram-se questões da fiscalidade e dos serviços financeiros. Para os especialistas, os fundos comunitários previstos para a recuperação da economia nacional poderão representar uma oportunidade para a profissão. Daniel Bessa, orador principal, entende que, em termos de contabilidade e fiscalidade, o pós-pandemia não trará grandes alterações, mas os milhões anunciados para apoiar a economia poderão representar uma oportunidade para as empresas de contabilidade. "A entrada desse dinheiro trará mais burocracia e trará mais corrupção seguramente; o essencial deste bolo irá para o Estado, e ficará muito pouco para as empresas. Mas ainda assim, as empresas vão precisar de muito apoio especializado para concorrer a esses fundos", diz.
José Santos, escritor e professor de Fisiologia, abriu o painel relativo aos Recursos Humanos explicando que "as pessoas estão a trabalhar de forma disfuncional". Assim, identifica o problema: estamos sempre ligados, temos elevada pressão para os resultados, trabalhamos muitas horas, por vezes sem grande produtividade, e muitas horas de viagens. Ora, isto gera stress que não é sustentável, pois as organizações terão assim pessoas mais cansadas.
No painel de debate, composto por José Bancaleiro, managing partner da Stanton Chase, Orlando Gomes, presidente do ISCAL, e Tiago Dias, diretor da Baker Tilly, percebeu-se que as pessoas ainda são vistas nas organizações como um custo, e não como um investimento.