Pandemia também está a deixar marcas na ética empresarial

Estudo de integridade da EY revela divisões entre chefes e funcionários. Abordagem ao compliance preocupa.
Publicado a

Crise económica e desemprego, teletrabalho e digitalização, boas ou más, as consequências da pandemia de covid-19 são inegáveis e estão a transformar o mundo e a vida de famílias e empresas. Mas haverá também efeitos ao nível das relações internas no trabalho e na forma como chefias e trabalhadores se veem e interpretam posturas? O EY Global Integrity Report de 2020 revela que sim. E não são os melhores.

O estudo hoje revelado, e que contou com quase 3 mil entrevistados de 33 países até fevereiro de, indica que à medida que as empresas começam a olhar para além da crise se tornam notórias "divisões sobre as repercussões na ética empresarial", como resultado da pandemia. Na análise aos desafios éticos que as empresas enfrentam nestes tempos turbulentos, foram ainda inquiridos 600 colaboradores de diversas posições estruturais das empresas de seis países. E as conclusões são preocupantes: a esmagadora maioria (90%) dos entrevistados acredita que as perturbações resultantes da covid representam "um risco para a conduta ética nos negócios", havendo ainda uma "disparidade preocupante entre os membros dos órgãos de administração, executivos e colaboradores sobre as implicações para o compliance".

Se 43% dos membros dos órgãos de administração e 37% dos executivos entrevistados acreditam que a pandemia pode "trazer mudanças e melhor ética nos negócios", apenas 21% dos funcionários mais jovens parecem concordar com essa afirmação.

As empresas foram inquiridas em seis países – China, Alemanha, Itália, Reino Unido, Índia e nos Estados Unidos -, estando em curso "o desenvolvimento de estudo específico com amostra de empresas portuguesas, angolanas e moçambicanas", explica a EY, que promete divulgar esses resultados nos próximos meses.

Para já, o estudo destaca que "os sinais de desalinhamento da integridade eram evidentes antes mesmo da pandemia, em diferentes níveis dentro das organizações, com mais da metade dos membros dos órgãos de administração (55%) a acreditar que os executivos demonstram integridade profissional, mas apenas com 37% dos funcionários juniores a partilharem desse sentimento" e mais de metade dos membros dos órgãos de administração (55%) a acreditar que "existem executivos na sua organização que sacrificariam integridade por ganhos de curto prazo".

"Estamos no meio da transformação mais rápida que a economia global já conheceu. Pressões extremas podem levar a decisões morais e éticas às quais as organizações devem responder com rapidez e sob maior escrutínio", justifica Andrew Gordon, Global Forensic & Integrity Services Leader da EY. "Os líderes devem ter confiança de que os seus colaboradores, de todas as posições hierárquicas, agirão com integridade. Contudo, o tone from the top é importante, e podemos ver com clareza que alguns funcionários não acreditam que as suas administrações e líderes seniores farão as escolhas certas", lamenta, aconselhando à ação para garantir que os líderes "agem de uma maneira que demonstra a todos stakeholders o compromisso de fazer a coisa certa agora e no futuro".

Dados, ética e conduta

Ainda de acordo com o documento publicado pela consultora, há outras razões de preocupação resultantes desta crise pandémica. A falta de confiança e de segurança nos dados, por exemplo, "continua a limitar o desenvolvimento das organizações", com mais de metade dos colaboradores mais jovens a não ter grande confiança no cumprimento da "legislação aplicável, códigos de conduta e regulamentos setoriais" por parte das chefias. "Além disso, 13% dos entrevistados, pareceram dispostos a ignorar a má conduta ética de terceiros para impulsionar a sua carreira ou remuneração, subindo a percentagem para 20% entre membros dos órgãos de administração", indica a EY, revelando que 12% dos administradores e executivos afirmaram que estariam dispostos a aceitar subornos, contra apenas 3% dos funcionários juniores, e percentagem semelhante das chefias estaria disposta a enganar entidades externas, tal como reguladores.

O estudo revela também que as empresas estavam "demasiado confiantes nas suas políticas de proteção de dados, com 86% dos entrevistados a declarar que a sua organização está a fazer tudo o que é necessário para proteger a privacidade dos dados dos seus clientes". No entanto, "59% dos entrevistados admitiram não providenciar formação sobre os regulamentos de privacidade de dados aplicáveis, como o RGPD (Regulamento Geral de Proteção de Dados)".

Problemas que foram amplificados pela pandemia, com 33% dos entrevistados a afirmar em abril que a interrupção dos padrões tradicionais de trabalho e o aumento do trabalho remoto são os "principais riscos para a conduta ética da sua organização" e 28% a crer que "a interrupção nas cadeias de fornecimento e as reduções nos benefícios e remunerações dos funcionários apresentavam maiores riscos para a ética da empresa".

"A falta de confiança e integridade já era um desafio antes da covid, mas a pandemia aumentou alguns desses riscos", confirma Gordon. "O que importa agora é como as organizações lidam com esse risco, que ações tomam e que sistemas e estruturas implementam."

Apesar de tudo, há esperança, com os entrevistados do estudo a acreditar que "atuar com integridade pode gerar retorno para as organizações", incluindo o fortalecimento da sua reputação (50%), a atração de novos clientes (41%) e a retenção de talento (40%). "À medida que as organizações começam a reformular a sua estratégia, devem aproveitar esta situação para ser um catalisador de mudança. A gestão deve assumir a liderança e garantir a abordagem correta contra a conduta antiética, colocando a integridade no centro das atenções e (re)avaliando a sua cultura corporativa, bem como a robustez dos seus programas de compliance", aconselha Pedro Subtil, Forensic & Integrity Services Leader da EY Portugal, Angola e Moçambique. "Creio que as organizações que se comprometem a fazer a coisa certa, mesmo quando ninguém está a ver, irão emergir desta pandemia mais fortes."

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt