A pandemia obrigou as empresas a alteraram os métodos de trabalho, que, em muitos casos, passou a ser assegurado a partir de casa. Hoje, tornou-se evidente que nada será como antes, sobretudo nos setores em que a presença dos colaboradores não afeta a produtividade. A importância da localização dos quadros das empresas no território esbateu-se.
"Tenho colaboradores da equipa portuguesa a morar em Madrid, no Porto e na Madeira, que antes viviam em Lisboa", afirmou Abel Aguiar, diretor executivo para Parceiros e PME da Microsoft Portugal, durante o Fórum PME Global, promovido pela Ageas Seguros, na quinta-feira, em Santarém. "Isto vai ser inevitável", observou, já que a empresa não está disposta a abdicar dos "talentos".
Abel Aguiar referiu que há uma grande procura no mercado por estes profissionais das novas gerações, que valorizam outros aspetos. "Quarenta por cento estão livres para mudar de emprego, se lhes derem melhores condições. Não estamos a falar de dinheiro, mas de condições de vida", sublinhou. "A pandemia alterou a maneira como as pessoas pensam", afirma.
Um estudo da Microsoft Portugal concluiu que 75% dos 1200 trabalhadores que exercem as suas funções em casa manifestam preferência pelo modelo remoto. Contudo, interagem menos com clientes e com fornecedores. "Isso não é bom, nem a nível profissional, nem a nível pessoal", comentou Abel Aguiar. A este propósito, destacou os impactos negativos, do ponto de vista mental, nos colaboradores entre os 20 e os 30 anos, solteiros e sem filhos.
Membro da direção da Ordem dos Economistas, Paulo Carmona sublinhou que são os recursos que levam uma empresa a determinar se vai investir numa determinada região, em detrimento de outra. "Convém a adega estar perto de uma vinha e uma empresa de rochas ornamentais estar ao pé de uma pedreira", exemplificou. Contudo, salientou que é o conhecimento que valoriza as empresas. "As empresas instalam-se onde há talentos. Há uma causa-efeito."
Paulo Carmona considerou, no entanto, que o teletrabalho veio mudar as regras do jogo, e até aumentar a eficiência das empresas. "Se juntarmos a questão digital, com carros com autonomia, qual é a razão para estar a morar em Lisboa, se sou de Santarém? Nenhuma", afirmou. Face à facilidade com que o trabalho é assegurado a partir de casa, considerou que deixou de fazer sentido as pessoas morarem em Lisboa, quando estão a 45 minutos de distância, onde se podem deslocar com facilidade. "O preço das casas aqui [Santarém] não tem nada a ver, nem a qualidade de vida."
A falta de mão-de-obra qualificada foi um dos problemas identificado pelo presidente da Nersant - Associação Empresarial da Região de Santarém, Domingos Chambel. "Foi um erro histórico o fim das escolas comerciais e industriais e queremos intervir nisso", disse o dirigente associativo. "Não estamos interessados em recém-licenciados que nunca entraram em empresas. Quem é que os vai ensinar? As pessoas com cursos industriais ou com a 4ª classe?"
"Os cursos de licenciatura têm de ter uma carga brutal dentro das empresas. Tem de se mudar de paradigma", sublinhou Domingos Chambel. Para tal, a Nersant vai colaborar com o Instituto Politécnico de Santarém (IPS) na identificação dos cursos de que as empresas precisam. Além disso, o dirigente lamentou que os quadros do IPS não tenham "experiência para dar os cursos de que se necessita."
"Está tudo muito desfasado da realidade, porque existe um grande défice nos conteúdos programáticos", confirmou o administrador da Olitrem - Indústria de Refrigeração, em Santarém, Armando Ferreira. "Tenho quatro estagiários, dois dos quais na área das redes informáticas, que aprenderam mais numa semana do que em todo o tempo que estiveram em formação", assegurou.
O problema da falta de profissionais na área das tecnologias da informação também é sentido na Microsoft Portugal. "Dificilmente, nos conseguem resolver o problema a partir dos alunos que estão a sair [do ensino superior]", disse Abel Aguiar, situação que justifica com o facto de se ter demorado muito tempo a adotar medidas na área da Educação. Como tal, entende que a solução passa pela reconversão de profissionais de outras áreas, através da formação.
O diretor executivo para Parceiros e PME da Microsoft Portugal observou ainda que, apesar de o setor das tecnologias ter sido dos que sofreu menos impacto devido à pandemia, o mesmo não sucedeu no ramo automóvel, que deixou de renovar frotas. "Houve empresas que se conseguiram reinventar melhor e até foram buscar receitas adicionais, ao apostar na digitalização e na desmaterialização dos processos, o que lhes trouxe vantagens competitivas", afirmou. "Conseguimos quebrar um conjunto de mitos."
Armando Ferreira admitiu que a Olitrem também teve alguns problemas no início da pandemia, superadas devido à flexibilidade da produção. "O mercado dos engarrafados [Sagres e Super Bock] caiu a pique e a indústria hoteleira parou. Só sobrou a farmacêutica", explicou. O aumento da procura deste setor levou a empresa a fazer mais investimentos, mas valeu a pena.
Antes disso, a Olitrem chegou a recorrer ao lay-off. "A empresa trabalhava há 57 anos, sem nunca ter parado, pelo que foi muito difícil explicar aos funcionários", recordou Armando Ferreira. Depois de a decisão ter sido comunicada, numa sexta-feira, o empresário recebeu uma chamada de um cliente e tudo mudou. "No domingo, ligámos a alguns trabalhadores a dizer para aparecerem no dia seguinte. Reincorporámos 20 dos 40%."
"Fomos identificados como um player internacional, porque os clientes estavam descontentes com a qualidade da China", justifica o administrador da Olitrem, empresa que exporta 90% da produção de soluções de refrigeração. "Existe uma grande procura de soluções na Europa, porque abandonaram os nossos concorrentes turcos, chineses e indianos", acrescenta. "O nosso caminho é ter produtos de valor acrescentado."
O exemplo da Adega Cooperativa do Cartaxo também foi apontado, durante a conferência, como um caso de sucesso. Fausto Silva, diretor executivo, reconheceu que havia um estigma em relação ao vinho produzido na região, sobretudo nos anos 90. Consciente disso, a Adega Cooperativa renovou a estrutura produtiva, definiu uma nova estratégia e aumentou a qualidade das uvas, pelo que hoje é uma das que integram o top 20 das mais premiadas a nível nacional.
"A partir do momento em que os associados acreditaram no nosso projeto e nos permitiram investir, apostámos em castas de qualidade, para produzir melhores vinhos, o que nos permite vender o produto melhor e investir mais", explica Fausto Silva. "Fomos contornando esse estigma", garantiu, que antes associava o Cartaxo ao "vinho carrascão", servido nas tabernas.
O CEO da Ageas Seguros, José Gomes, referiu a importância destes debates, promovidos pela empresa nos últimos dois anos, por serem um momento de troca de ideias sobre questões que se colocam nas várias regiões de país. "O feedback que temos recebido é importante", assegura.