Pandemia veio alargar o papel dos contabilistas

A primeira <em>Accounting Summit</em> arrancou hoje no formato online e trouxe à discussão o papel da profissão de contabilista e financeiro nos tempos de incerteza que se vivem atualmente. No período pós pandemia estes profissionais poderão ver a sua profissão valorizada, tornando-se conselheiros de negócio.
Publicado a

O pontapé de saída da primeira Accounting Summit realizada em Portugal, com o patrocínio da Primavera BSS, deu-se com um painel dedicado ao tema «O Estado da Nação» que teve como objetivo fazer um breve retrato da profissão de contabilista em Portugal. Problemas e possíveis soluções foi o que se debateu nestes 75 minutos, que contaram com a colaboração de José Dionísio, Co-CEO da Primavera BSS, que fez a abertura dos trabalhos, como orador principal, seguido do debate moderado por Camilo Lourenço, painel este que permitiu à audiência conhecer a opinião de três especialistas: António Godinho, empresário e consultor, José Rodrigues, Professor e Vice-Reitor do ISCTE, e Vitor Vicente, CEO da Contas e Resultados.

José Dionísio foi o primeiro orador do dia e começou por apresentar o mercado que estes profissionais têm à sua disposição. Estes profissionais movem-se num universo total de 1.300 mil empresas, talvez o maior mercado nacional à disposição de um setor, mas mesmo assim, não estão a aproveitar todas as oportunidades que este lhes oferece. Existem em Portugal cerca de 60 mil profissionais ativos e inscritos na Ordem dos Contabilistas Certificados, e desses cerca de metade trabalham nos 22 mil escritórios de contabilidade registados em Portugal - a outra parte estará ligada a empresas e instituições de média e grande dimensão -, ou seja, «temos um contabilista para cada 19 empresas», refere José Dionísio.

Isto quer dizer que estas empresas sobrevivem com margens operacionais mínimas e rentabilidades baixas, vivendo mesmo no limiar da rentabilidade. José Dionísio comparou a média de receitas das empresas de contabilidade em Portugal, que é de 73,5 mil euros, com as de França, país que têm um número de escritórios idêntico ao nosso, mas que o valor médio registado ascende a 900 mil euros. "Porque será que o setor da contabilidade em Portugal compara mal com os congéneres europeus? Preços baixos estão, regra geral, associados a um excesso da oferta relativamente à procura, mas também podem estar associados a um mercado sem capacidade económica, ou ainda a um mercado que não valoriza o serviço que contrata porque é apenas visto como uma obrigação", refere o orador.

Defende que só um tecido empresarial forte, mais robusto e bem estruturado, mais unido e ajustado, poderá reforçar a atividade destes profissionais e valorizar a sua atividade que está indexada à do próprio mercado empresarial. Assim, entende que o volume de receitas de um escritório de sucesso deverá situar-se entre os 50 e os 60 mil euros por profissional, ao ano, ou seja, um escritório com quatro profissionais deverá faturar, no mínimo, 200 mil euros por ano, e as suas avenças deverão estar na média dos 220 euros mensais. Só com uma margem operacional mínima de 20% é que um escritório consegue pagar todas as suas obrigações, explica.

Este especialista, que há mais de 30 anos acompanha de perto este setor, levanta várias hipóteses e caminhos para a sobrevivência das empresas de contabilidade. Um deles é a consolidação e fusão dos seus negócios: duas empresas de cinco funcionários ao juntar-se terão o dobro da dimensão, o dobro dos clientes, o dobro do negócio. "Darão uma nova vida aos seus colaboradores, terão melhores capacidades de investir em novas ferramentas de trabalho, farão uma melhor seleção das melhores práticas conjuntas. É bem verdade aquela máxima que diz: é melhor metade de mais, do que tudo de menos", refere a propósito.

Outro dos caminhos que aponta é a diversificação dos serviços prestados, sobretudo apostando nos serviços de maior valor acrescentado, o que lhes permitirá diferenciar da sua concorrência. Termina a sua apresentação referindo que "esta profissão não acabará, mas apenas se transformará. Só acabará para os os profissionais que não se quiserem transformar".

Esta questão da valorização dos serviços oferecidos por estes profissionais voltou a ser discutida no painel de especialistas que se seguiu. António Godinho foi o primeiro a defender que a profissão está em acelerada mudança. "Ainda não temos analistas de gestão, mas também já não temos guarda-livros. Diria que, atualmente, temos o contabilista-analista", refere a propósito da transformação que a profissão de contabilista está a atravessar.

Sabendo que esta atividade tem uma população envelhecida, em que apenas 3% dos profissionais têm até 30 anos, e que 37% têm 50 ou mais anos, foi lançado ao painel o desafio de tentar perceber porque não é esta uma profissão atrativa para os jovens. António Godinho entende que isso acontece porque ainda há a ideia de que os contabilistas apenas fazem inserção de dados, e Vítor Vicente entende que talvez não seja bem esse motivo, pois há bastante entrada de gente nova e sobretudo de jovens mulheres, uma evolução positiva que se sente nos últimos anos.

Para Vitor Vicente, a pandemia está a transformar completamente a visão dos contabilistas, pois foi uma estrutura que se manteve operacional. "Muitos escritórios não fecharam e foram até fundamentais para ajudar as empresas a ultrapassar as dificuldades, a terem dinheiro para enfrentar esta situação, a tratar de lay-off, adaptar apoios, de reembolsos de IVA, etc. "No nosso escritório, provavelmente vamos colocar mais dinheiro nas contas bancárias dos nossos clientes do que as avenças que deles recebemos. Deixamos de ser tratadores de impostos para sermos conselheiros dos empresários". Isto é trazer mais valor acrescentado aos profissionais, que, no período pós pandemia, poderão ver aqui alguma recuperação das suas margens e rentabilidades.

José Rodrigues fez, em jeito de remate final, uma resenha do que se espera desta profissão para o futuro. "Os contabilistas no futuro terão de mudar de campo, e ser uma agente de mudança. Terão de sair do seu espaço e apresentarem-se nas empresas como agentes de mudança, e aí sim, quando os empresários perceberem que os contabilistas os ajudam nos seus processos, o valor do contabilista vai subir de forma exponencial", afirma.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt