Partidos como negócios

Na generalidade dos países europeus, incluindo Portugal, os eleitores só têm contato com os pequenos partidos, aquelas siglas que valem zero vírgula qualquer coisa por cento, quando eles aparecem de fugida nas campanhas eleitorais.
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No Brasil não - mesmo sem eleições, partidos para todos os gostos interrompem os horários publicitários e tentam arregimentar militantes entre anúncios a detergentes e cervejas. Porque no país, criar partidos é um negócio. É um nicho de mercado.

Segundo a lei, com 490 mil assinaturas pode formar-se um partido e com isso concorrer ao generoso naco de 300 milhões de reais (cerca de 100 milhões de euros) do Fundo Partidário posto à disposição de todas as forças - como não há nenhuma cláusula de desempenho, no limite, mesmo os partidos sem um único voto podem arrecadar até 800 mil reais (mais de 250 mil euros).

Os pequenos partidos trocam então os segundos televisivos a que têm direito durante as campanhas eleitorais pela participação em coligações lideradas pelos grandes partidos que os acabarão por levar a reboque ao Congresso Nacional e, quem sabe, ao governo.

O Brasil tem, desse modo, o parlamento mais fragmentado do mundo, de acordo com uma fórmula desenvolvida por professores da irlandesa Trinity University, pesquisadas 1000 eleições de 132 países. São 28 partidos no país, sendo que o maior de todos, o PT de Dilma Rousseff, soma meros 13,4 por cento das vagas à disposição.

Esta matemática partidária resulta em diversos vícios. Leva a que os governos, para agradar ao comboio de pequenos partidos, tenham ministérios para, literalmente, dar e vender - no atual executivo são 39. E leva a situações de ingovernabilidade, onde o dia a dia parlamentar é um negócio permanente de troca de votos por cargos - ou seja, Mensalões no limite da legalidade mas muito para lá dos limites da decência.

Por alguma razão, 71 por cento dos eleitores brasileiros dizem hoje não ter partido preferido.

À margem dos pequenos partidos, há gente graúda, como Gilberto Kassab, o ex-prefeito de São Paulo que se define como um homem de esquerda, de centro e de direita, cuja vida é criar novos partidos, por fusão ou por cisão, e assim ir garimpando espaço e preponderância parlamentares - à conta desse expediente já ganhou de Dilma a cobiçada pasta de Ministro das Cidades.

Não espanta por isso que além dos 28 partidos com representação na câmara e de quatro que ficaram à porta, haja mais 40 em lista de espera, entre eles o Rede, da candidata presidencial derrotada Marina Silva, o Partido Popular da Liberdade de Expressão Afro-Brasileira, o Partido de Representação da Vontade Popular, o Partido Militar Brasileiro e até o Partido Nacional Corinthiano, em homenagem ao clube de futebol.

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