Patrões com "mix de preocupações" para 2023

Apontado como futuro líder da CIP, Armindo Monteiro admite esforço para mitigar a erosão dos salários. Confederação alterou os estatutos e baixou limite de faturação para novos associados.
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O atual vice-presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), Armindo Monteiro, prevê que "as nuvens que vão pairar sobre as empresas no próximo ano parecem ter cores carregadas" e, por isso, 2023 representa "um mix de preocupações" para os patrões. Não obstante, o homem que é apontado como mais provável sucessor de António Saraiva na liderança da CIP, entende que as empresas já estão, "de alguma maneira", a trabalhar para atenuar a perda de valor dos salários.

Em declarações ao Dinheiro Vivo, a propósito dos novos estatutos da CIP, Monteiro lembra o acordo de rendimentos e competitividade alcançado entre o governo e parceiros sociais como um documento que "já tem implícito" um "esforço para atenuar o custo dos rendimentos salariais e para que os salários não sofram uma erosão como a que poderiam ter se não houvesse uma atualização".

O acordo referido, alcançado em outubro, prevê o aumento do salário mínimo nacional dos atuais 705 euros para 760 euros em 2023 e uma majoração em 50% dos custos com a valorização salarial em sede de IRC para empresas que aumentem salários em linha ou acima de 5,1% este ano.

E poderão as empresas ir mais longe e tomar outras medidas para criar melhores condições salariais? "Temos de ver no início do ano", afirma. Primeiro, prossegue, há que perceber a evolução das variáveis macroeconómicas.

"Neste momento as notícias são de alguma normalização [da inflação].Não estamos com taxas galopantes. A inflação já não cresce como cresceu em parte significativa deste ano, mas está alta. Agora, dá a sensação que tende para alguma normalização", sublinha.

Em novembro, a inflação foi de 9,9%, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), quando em outubro foi de 10,1%.
Outros desafios para 2023, na ótica do dirigente da CIP, passam pelos custos energéticos e pelos encargos com o custo do capital. Ainda que a inflação não tenha, neste momento, "a dimensão que se temia", depreende-se das palavras de Armindo Monteiro que, mediante os dados económicos dos primeiros meses do ano, "as empresas podem deixar de ter de incorporar no preço final o aumento de custo de produção".

No entanto, persiste "claramente uma desadequação entre a oferta e a procura", o que poderá complicar a preservação do emprego em 2023. Para as empresas, a criação de emprego ou a falta de mão-de-obra estão relacionados com problemas demográficos, nível de qualificações e, ainda, "com a recuperação da atividade" face aos efeitos da pandemia. "Para 2023 vai ser um desafio adequar a oferta e a procura no mercado laboral, a solução passa, seguramente, por uma reciclagem profissional do ponto de vista da formação. É um desafio", defende o vice da CIP.

CIP altera estatutos

Foi também (mas não só) por causa destes desafios que se colocam às empresas que a CIP avançou com uma alteração aos estatutos.

A grande modificação é a descida do limite de faturação a partir do qual uma empresa não representada por uma associação pode aderir à CIP, que passa dos atuais 50 milhões de euros para 30 milhões.

A maioria do tecido empresarial português é constituído por pequenas e médias empresas (PME) e, atualmente, "não há uma empresa que possa colocar um só único CAE na sua atividade", sublinha. "Esta alteração permite-nos uma representatividade mais abrangente, porque a atividade económica já não é tão segmentada como noutros tempos", diz Monteiro.

Foi também aprovada a limitação a um máximo de dois mandatos de quatro anos para cada presidente. "A limitação de mandato está de acordo com as boas práticas corporativas", defende o dirigente da CIP, indicando que é também uma forma de garantir um "rejuvenescimento" da liderança a cada ciclo.

Também o conselho geral da CIP passa a ter funções "viradas para questões estratégicas", enquanto a direção foca-se nas funções "mais operacionais". Além destas mudanças, Armindo Monteiro defende a mudança da sigla da confederação. A

Confederação Empresarial de Portugal já é o nome do organismo, mas mantém-se a sigla CIP, preservando a original "matriz de pendor industrial " da entidade. Explica Monteiro que não se pretende abrir mão das empresas da indústria, mas tornar a confederação "mais ampla e alargada a todos os setores". "[Com uma designação] mais condizente para a realidade que queremos", defende.

De acordo com uma notícia do Jornal de Negócios, de 9 de outubro, Armindo Monteiro vai ser o novo presidente da confederação. As eleições estão marcadas para março, mas, segundo o mesmo jornal, tudo indica que será Monteiro a suceder a Saraiva. A mudança na liderança já terá sido comunicada a diferentes associações parceiras e ao próprio governo.

Segundo informação disponível no site da CIP, a confederação dos patrões representa 150 mil empresas, que garantem 1,8 milhões de empregos cuja produtividade corresponde a 71% do PIB.

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