O ministro dos Negócios Estrangeiros inicia amanhã uma viagem à China, acompanhado de mais de 50 empresários de setores tão distintos como a indústria agro-alimentar, banca, energia, tecnologias de informação, logística e materiais de construção, a qual deverá consagrar o atual bom momento das relações económicas bilaterais.
O reforço das exportações nacionais estará sempre em vista, sem esquecer, naturalmente, a agenda de privatizações. Esta é a primeira viagem oficial à China de um ministro do atual Governo e, além de Pequim, onde vai encontrar-se com o 'número dois' do executivo chinês, Li Keqiang, Paulo Portas visitará Xangai, Hong Kong e Macau.
"A China é hoje um dos dez maiores parceiros económicos de Portugal e fez importantes investimentos em grandes empresas portuguesas. Esta visita é a consagração de um momento muito especial nas relações entre os dois países", disse à Lusa o embaixador português em Pequim, José Tadeu Soares.
A visita começa por Xangai, a maior e mais cosmopolita cidade chinesa, com cerca de 23,5 milhões de habitantes. Em Pequim, na terça-feira, Paulo Portas reúne-se com o seu homólogo chinês, Yang Jiechi, e a seguir vai encontrar-se com o ministro do Comércio, Chen Deming, e com o diretor do Departamento Internacional do Partido Comunista, Wang Jiarui.
O programa na capital chinesa inclui ainda a participação num seminário empresarial, contactos com empresas e um jantar com banqueiros dos dois países no único restaurante português de Pequim.
Na lista das 50 empresas que acompanham o ministro constam o Banco BIG, o BES, o Barclays, a CGD, Santander Totta e o Millenium BCP. A participação do BPI não estava, ainda, totalmente confirmado.
Paulo Portas segue no dia 6, sexta-feira, para Hong Kong, rumo a Macau, onde permanecerá até domingo.
A EDP, que recentemente passou a ser maioritariamente detida pela China Three Gorges, a REN, detida em 25% pela State Grid, e a Galp Energia - que se associou ao gigante chinês Sinopec na Petrogal Brasil - são algumas das empresas que integram a comitiva de Paulo Portas, a par da Cimpor, com uma longa experiência no mercado chinês, mas cuja operação consta dos ativos que serão dados à troca pelas ações da Votorantim.
À procura de parceiros na China
Apresentar o seu "vasto portfólio de soluções a um mercado com grande dimensão e elevada taxa de crescimento", ao mesmo tempo que aproveita para reforçar as relações com o mercado chinês são as razões que levam a Efacec a participar na comitiva do MNE.
Desde o final da década de 90 que a Efacec participa numa joint venture para a produção de transformadores de potência na China, embora não participe na gestão operacional desse ativo.
A Efacec é, também, uma das empresas que vai com vista a "analisar o estabelecimentos de possíveis parcerias com empresas chinesas para o mercado global".
Ana Cristina Lança, Diretora de Comunicação e Sustentabilidade do grupo, explicou ao Dinheiro Vivo: "O crescimento acentuado da China é certamente muito atrativo para empresas que operam em áreas como a Efacec, nomeadamente da energia, da engenharia, do ambiente e da mobilidade elétrica (automóveis e autocarros), etc. Neste contexto, existirão com certeza muitas oportunidades de relações e de concretização de negócio, mas a sua operacionalização requer uma proximidade e o aprofundamento de relações".
Presente no mercado chinês com uma operação própria desde 2010, o azeite Gallo vê a participação nesta comitiva ministerial como uma oportunidade de estreitar a cooperação entre Portugal e a China e de alargar a rede de contactos com potenciais parceiros de negócios. A empresa reconhece que o volume de vendas no mercado "é ainda baixo", mas garante que essa "não é" a maior das suas preocupações para já.
"Estamos a construir um mercado, a alinhar o melhor modelo para o fazer, a definir os melhores parceiros para o conseguir e essas sim são as nossas prioridades na China nesta fase", diz a diretora da Unidade de Negócios Internacionais da Gallo Worldwide. Segundo Helena Bento, a Gallo é a 5ª marca de azeite mais vendida no mundo e pretende ser a 3ª a curto prazo.
"O mercado chinês tem um papel importante no alcançar desse objetivo e o que pretendemos é liderar o desenvolvimento da categoria de azeite nesta geografia, aliás como já fizemos em países como o Brasil onde detemos quase 30% de quota de mercado", frisa.
Já a Bial, que fechou 2011 com 140 milhões de faturação, dos quais 40% no exterior, lembra que a China é um mercado "muito atractivo", pela sua dimensão e pelo grande potencial que representa.
"Mesmo que conseguíssemos entrar numa região ou só numa parte dela, representaria já um potencial enorme para os nosso medicamentos", referiu ao Dinheiro Vivo, António Portela, sublinhando o papel e o " esforço enorme" que a diplomacia económica têm desempenhado, "tentando abrir portas às empresas portuguesa".
Com pouca presença na Ásia e sendo a China um mercado completamente novo, o CEO da Bial admite uma "grande expectativa" em relação a esta primeira abordagem ao mercado, sobretudo atendendo à especificidade do seu produto.
"As questões dos registos dos medicamentos são sempre complicadas e, mais ainda num país como a China onde não dominamos a língua", afirma, sublinhando que será uma primeira abordagem, de cariz mais prospetivo.
De entre o portfólio da Bial, António Portela crê que são três as áreas de produtos que poderão exportar para o mercado chinês: "O nosso antiepiletico, as vacinas para tratamento das alergias e o conjunto de produtos para a área de saúde da mulher grávida".
Presente na China há mais de duas décadas está a Corticeira Amorim, que construiu mesmo uma fábrica no país. "Apesar de termos uma presença de várias décadas na China, esta será uma boa oportunidade para reforçar os laços existentes com este mercado.
No âmbito da visita, estaremos presentes numa conferência sobre exportações, na qual se espera a participação de mais de uma centena de executivos chineses. Tendo em conta o papel das exportações na economia nacional e o facto de a Corticeira Amorim exportar mais de 95% da sua produção, esta será mais uma oportunidade de contribuir para um maior conhecimento das opções de investimento em Portugal", afirma fonte da empresa.
Segundo os dados de 2010, o mercado chinês valia cerca de 2% do volume de negócios do grupo, na ordem dos 10 milhões de euros. O objetivo anunciado em entrevista à Lusa, nesse ano, pelo delegado do grupo na China era de que este mercado viesse a representar 20% da faturação.
A última grande missão empresarial enviada por Portugal à China, com cerca de 70 empresários, foi em janeiro de 2007, durante a visita do então primeiro-ministro, José Sócrates.
Em 2011, as exportações portuguesas para a China aumentaram 69,7% para 399 milhões de euros. Curiosamente, só entre Janeiro e Abril deste ano, Portugal já exportou bens no valor de 301 milhões de euros. Minerais e minérios é o que mais exportamos, seguindo-se os veículos e outros materiais de transporte, máquinas e aparelhos e as pastas celulósicas e papel.
A China foi, em 2011, o 14º cliente de Portugal, mas o 9º fornecedor. Importamos, essencialmente, máquinas e aparelhos, metais comuns, vestuário e químicos. As importações, em 2011, totalizaram 1.499 milhões de euros face aos 1.576 milhões do ano anterior.