Pausa ou não-pausa, eis a questão

Publicado a

A sobrevalorização dos preços das casas em Portugal - em Lisboa e no Porto, principalmente - leva à inevitável consequência de uma aceleração das desigualdades. As famílias terão de usar uma maior fatia do seu bolo salarial com a habitação, reduzindo encargos, também eles essenciais, como a alimentação, o vestuário e calçado, a energia. E não acontece apenas para quem compra - "onde o aumento dos preços das casas a partir de 2017 levou a uma deterioração na acessibilidade ao mercado", conforme explica o policy paper da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), sobre a habitação. Acontece também no arrendamento, já que os investidores têm mais dificuldades em aceder ao financiamento e onde o mercado, para os arrendatários, está muito pressionado pela escassa oferta e elevada procura. Os inquilinos, aliás, propõem agora que o Orçamento do Estado para 2024 atualize a dedução para os 20% com as rendas, em vez dos atuais 15% e o limite de 502 euros, defendendo que seria um incentivo ao arrendamento, podendo ajudar a reduzir a "informalidade" e a "clandestinidade". Pelo menos 2% do teto da dedução, acompanhando o limite à atualização das rendas, o governo já admitiu aumentar.

Apesar da pandemia de covid-19 ter interrompido o ciclo de crescimento do turismo, os números voltaram a ser animadores. Portugal é hoje o número dois (primeiro está a Grécia) dos campeões da União Europeia na recuperação. É inquestionável o peso do turismo para o produto interno bruto (PIB), mas não podemos ignorar também que vai continuar a pressionar o mercado de habitação, já que, "principalmente desde 2014, o uso do parque habitacional para atividades turísticas como os alojamentos locais teve um impacto significativo nos preços das habitações (aquisição e arrendamento), especialmente em áreas turísticas", destaca o estudo da FFMS. Podemos acrescentar mais exemplos como o do investimento estrangeiro e a quebra na construção de casas novas na última década. E depressa percebemos que inverter este quadro não é imediato.

A partir de fevereiro de 2022, intensificou-se mais um problema que ainda persiste. Para 1,4 milhões de agregados familiares, o disparar das taxas Euribor penalizou o orçamento doméstico, mesmo nos empréstimos mais antigos, e com ele agrava-se o risco de incumprimento. Esta semana, o Banco Central Europeu (BCE) veio confirmar - pelo aumento da taxa diretora em 0,25 pontos percentuais, fixando-se nos 4,25%, o valor mais alto dos últimos 15 anos - que o aperto ainda não terminou. Christine Lagarde, presidente do BCE, acabou por amornar as expectativas em relação à próxima reunião. "[No conselho do BCE] temos uma mente aberta quanto às decisões a tomar em setembro e nas reuniões seguintes", explicando que "pode ser uma subida ou uma pausa", mas fica a garantia de que descer é que não. Entretanto, até dezembro as taxas indexadas aos empréstimos à habitação deverão subir em Portugal. Entre pausa ou não-pausa, só a partir de 2024 é que se espera que se possa vir a sentir algum alívio - ligeiro ainda -, na melhor das hipóteses, depois do rigor do inverno.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt