É fundamental que as 85 obras de Miró permaneçam em Portugal e o CCB é o sítio adequado para albergá-las. A convicção é de Pedro Lapa, diretor do Museu Coleção Berardo.
"Esta é uma segunda oportunidade, depois de uma situação que foi tão desastrosamente e precipitadamente resolvida, como, de resto, o tribunal o comprovou. É uma segunda oportunidade para o país pensar a sério a importância e a relevância destas obras", disse Pedro Lapa.
O responsável critica a "leitura estritamente economicista" do Estado, que vê a coleção como "um ativo que tem de se vender para abater rapidamente uma dívida que, todos sabemos, é gigantesca". Se o leilão da Christie's se tivesse concretizado e o Estado conseguisse os 36 milhões de euros da base de licitação, apenas 0,8% das dívidas da Caixa Geral de Depósitos seria amortizado. Esta é, para Pedro Lapa, uma "péssima visão da questão", já que "há outros valores que a coleção pode trazer ao país".
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Em primeiro lugar, "há valores formativos e educativos. O Estado português nunca colecionou obras de arte internacionais, ao contrário de vários outros países". E importa esclarecer, continua, que, hoje em dia, "o património de um país não se resume àquilo que é estritamente nacional. O Leonardo da Vinci não tem nada a ver com Paris e, no entanto, vamos todos a Paris para ver a Mona Lisa".
Há ainda valores económicos. "Não é a perda de 36 milhões que está em causa. O valor que isto terá para o país, em termos de turismo, e obviamente não a curto prazo, mas a médio prazo, é mesmo muito superior a isso".
Antes de decidir para onde deve ir a coleção dos Miró, acredita o diretor do Museu Berardo, é importante mostrar estas obras. "Os portugueses têm direito de saber aquilo que foi escondido durante muitos anos. As pessoas nem sabem do que se está a falar. Dos especialistas, só eu e mais duas ou três pessoas terão visto a coleção. Isto foi escondido intencionalmente e, neste momento, o importante é que os portugueses percebam o que é aquilo, que seja mostrado em Lisboa e, sugiro, numa situação itinerante, em diversos espaços. Felizmente, Portugal não tem falta de espaços para exibir esta coleção. Ela não comporta gastos nenhuns nesse sentido, só comporta mais valias".
Depois, então, poder-se-á pensar quais são os museus que o país tem que sejam adequados. Pedro Lapa exclui vários museus nacionais e acredita que o CCB será o sítio ideal. "O Museu do Chiado é um museu com uma coleção estritamente nacional, não tem coleções internacionais, portanto não é um local que faça sentido para esta coleção". O Dinheiro Vivo contactou o Museu do Chiado, mas não obteve comentários. Já Serralves "tem outro âmbito cronológico, mais contemporâneo, e Miró é um pintor do século XX". O Centro de Arte Moderna, parte da Fundação Calouste Gulbenkian, é privado, pelo que "não será esta a vocação do CAM".
"Penso que, obviamente, o CCB é o sítio adequado. Foi criado para ser um grande espaço de exposições e é bastante importante fixar naquele espaço património de grande qualidade. O CCB, com a escala que tem, é o espaço para albergar em permanência um núcleo desta coleção, ou mesmo para dar uma continuidade à coleção Berardo. Temos já um grande núcleo surrealista e seria fantástico ter uma expansão com um núcleo Miró", disse Pedro Lapa.
O diretor do Museu Berardo não exclui, no entanto, a hipótese da Culturgest, fundação da Caixa Geral de Depósitos. "Dar a coleção à CGD era uma possibilidade que juntava as duas coisas. A CGD tem uma coleção de arte muito importante, ainda que seja dominantemente portuguesa, mas talvez possa construir um núcleo próprio para isto", conclui.